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Olhar da Fé

A PRESENÇA PÚBLICA DA IGREJA

26/08/2022

         De acordo com a lógica da encarnação de Deus em Jesus Cristo, a Igreja aceita os riscos de assumir um compromisso concreto na história humana. Esse gesto comporta tomadas de posição, assumindo o amor gratuito e desinteressado como núcleo fundamental.  A presença cristã na sociedade se traduz pela lógica da gratuidade, pois essa estimula cada cristão a encontrar o adequado comportamento no uso das riquezas, do poder, da sexualidade e do Planeta.

         Traz consigo uma visão especifica de um humanismo solidário, uma antropologia que remete ao transcendente e a uma ecologia integral. Tal cosmovisão nem sempre é compreendida e, não raras vezes, provoca reações contrárias desde a Idade Antiga. A lógica do amor de Deus, revelado em Jesus Cristo, sofre resistências.

         Na fidelidade ao Evangelho, a fé cristã não hesita em promover a criação de obras e instituições que expressem a caridade, atuando, especialmente, com os que estão socialmente excluídos e moralmente perdidos na sociedade atual. Afinal, a todos se dirige a Boa-Nova que liberta, converte e salva.

         Nesse sentido, a Igreja há de educar os seus fiéis  para um sadio relativismo, capaz de reconhecer, dentre os bens que passam, aqueles que são eternos. O crente há de viver onde está inserido, sem cair nas ilusões idolátricas que cada contexto histórico pode produzir.  Afinal, a Igreja não pode enclausurar-se numa fé privada, mas deve compreender seu papel e a oportunidade de participar da busca comum que a sociedade faz para encontrar sentido e felicidade. Ela deve colaborar com suas tradições morais, com sua sabedoria secular e com a sua visão de ser humano.

         A Igreja, igualmente, não pretende descartar o debate e nem pode apresentar soluções elaboradas por antecipação, mas se impõe com seu engajamento com todas as vozes da sociedade para descobrir as implicações reais e os riscos das soluções propostas. Será sempre função da Igreja despertar para a consciência moral, com a finalidade de suscitar consciências capazes de julgar sem se deixarem abalar pela sedução do relativismo. A Igreja propõe a lei moral, despertando liberdades responsáveis e promovendo uma sociedade justa.

         Sobre muitos assuntos, os crentes não têm nada de específico a dizer, seja pelo consenso de algumas matérias, seja pela novidade de certas questões. A Igreja, contudo, diante dos impasses de uma sociedade complexa, há de distinguir as forças de vida das forças de morte. Cabe à Igreja apelar à esperança, apontando para as potencialidades extraordinárias de criatividade humana e da engenhosidade da sociedade mesmo em tempos pandêmicos. À Igreja compete atestar que, em toda a noite escura, brilha uma luz que é a ressurreição. Trata-se, pois, de um otimismo maduro e lúcido, consciente da presença do negativo, mas carregado de esperança transcendente.

 

GRATIDÃO À VIDA CONSAGRADA EM SANTA MARIA 

19/08/22

 

            A Arquidiocese de Santa Maria, há décadas, conta com religiosos e religiosas que plantaram árvores frondosas nesta região, produzindo frutos generosos na educação, na área da saúde, na assistência social, e na vida pastoral, e na vida contemplativa. Aqui chegaram e transformaram a realidade, promovendo o bem comum e a cultura, cuidando da vida ameaçada e trabalhando por justiça e paz, e, também, testemunhando que é possível dedicar-se exclusivamente a Deus.  São mulheres e homens de vidas consagradas a Jesus Cristo. Não realizaram as obras por seguirem uma causa, antes, por conta do seguimento do Evangelho, produziram frutos que permanecem.

              Podemos constatar suas obras: escolas, faculdades, universidades, projetos sociais, asilos, creches, obras de caridade, hospitais, centros de saúde, mosteiros, entre outras. Mas essa grande árvore tem raízes que nem sempre são conhecidas.

A primeira tarefa de um consagrado não é realizar obras, mas um permanecer com Cristo e nada antepor a Ele. Talvez aqui se encontre o grande tesouro a ser redescoberto por todos nós: no cristianismo, o primado do ser se eleva sobre o do fazer.  

            Para viver essa consagração, escolheram seguir um fundador, ou fundadora, que os inspirou no seguimento do Evangelho.  São pessoas que formam uma nova família vivendo os votos de pobreza, castidade e obediência. Cada um não perde a individualidade, mas não se pertencem mais, afinal, no seu ser e agir, deverá transparecer o carisma que Cristo concedeu à família religiosa que, livremente, escolheram para congregar, por isso algumas se chamam Congregação, outras, Ordem, Sociedade de Vida Apostólica e outras ainda, Associação.

            Como nos recorda a Perfectae Caritatis, um decreto do Concílio Vaticano II, desde os princípios da Igreja, houve homens e mulheres, que, pela prática dos conselhos evangélicos, procuraram seguir a Cristo com maior liberdade e imitá-lo mais de perto, consagrando a própria vida a Deus. Por isso vivem a castidade “por amor do reino dos céus” (Mt 19,12). Ser casto é a forma de viver a fidelidade a Jesus. Não se trata de negação do ser, pelo contrário, é consequência de quem se sente tão amado por Cristo que, diariamente, dirá: “Guardo no meu coração tua Palavra para não te ofender.”

            Também são chamados a viver a pobreza voluntária, abraçada para seguir a Cristo. Por ela participam da pobreza de Cristo, que, sendo rico, se fez pobre, para que nós sejamos ricos da sua pobreza. O maior sinal dessa liberdade diante dos bens e dos dons é a partilha de tudo. Não há comunhão sem partilha, pois dela depende a promoção do bem-comum.

              Pelo voto de obediência, oferecem a oblação da própria vontade como sacrifício de si mesmo a Deus, e, por ele, se unem mais constantemente à vontade divina. A exemplo de Jesus Cristo, que veio para fazer a vontade do Pai, se dispõem escutar a voz de Deus pelas diversas instâncias da família religiosa da qual passam a participar mais efetivamente com o ato solene da consagração.

         A esses homens e mulheres que estão no nosso cotidiano, agradecemos não apenas as boas obras de seu labor, mas, sobretudo, sua consagração a Jesus Cristo que lhes permite fazerem a diferença em nossa sociedade. Gratidão pelo ser que se expressa em tantas obras de caridade entre nós.

 

VOCAÇÃO: IDENTIDADE E MISSÃO

(12/08/22)

             Vocação é chamar alguém pelo nome que, biblicamente, designa eleição para uma missão. Ao chamado, corresponde uma resposta livre e decidida. Somente há resposta quando se escuta o chamado. O homem bíblico se descobre na relação com o Deus que chama. Assim ocorreu com Moisés, diante da sarça ardente, ao receber a missão, confiada por Deus, de libertar o povo da escravidão no Egito. Diante da chamada, Moisés responde: “Quem sou eu para ir ao Faraó e fazer sair do Egito os israelitas?” (Ex 3,11). Moisés se questiona sobre sua identidade e condição. O vocacionado sente seu limite e suas impossibilidades concretas que lhe são inerentes. Sente-se fraco e incapaz para a grande missão solicitada.

             O chamado exige que o vocacionado, consciente de seus limites, torne-se uma nova pessoa, e isso o atinge de forma tão profunda que exige que revise toda sua existência. A nova condição do ser humano, que se encontra com o Deus único e verdadeiro, é possível pela ação direta daquele que chama. Assim, à questão de Moisés titubeando em aceitar a missão, Deus responde: “Eu estarei contigo!” (Ex 3,12). No original hebraico, o “eu estarei” pode ser compreendido também como “eu serei”, uma alusão direta ao nome de Iahweh que significa: “Eu sou aquele que sou” (v. 14). Isso possibilita compreender que, diante da pergunta: “Quem sou eu?”, não há uma resposta. O ser humano só se autocompreende no contexto de sua relação com o seu Criador. A criatura foi vocacionada à vida, mas precisa, livremente, responder ao convite de levar à plenitude essa existência.

             Na visão bíblica, o ser humano não é concebido a partir de sua estrutura biológica ou de um sentido filosófico. A essência do ser humano é abordada a partir de sua relação com Deus. Seu objetivo é descrever as relações fundamentais do ser humano no seu ser e no seu existir-no-mundo, tendo como centro sua relação criacional e dialógica com Deus. O ser humano se relaciona com a Terra, as plantas e os animais numa postura de senhorio e de autonomia, mas seu relacionamento mais importante é com Deus. Ao garantir sua presença nos caminhos da vida, Deus não diz quem é o ser humano, nem o que deve (ou não) fazer. O Deus do Evangelho é Emanuel, é Deus-conosco no mundo, que trabalhou com mãos humanas na carpintaria de José e chorou a morte de seu amigo Lázaro.

             Uma vocação cristã é sempre uma resposta a Jesus Cristo que convida, ainda hoje, homens e mulheres, a segui-lo no serviço à humanidade, para que todos tenham vida e vida em abundância (Jo 10,10). O ser humano é vocacionado a viver gestos de fraternidade no cotidiano, onde o amor se faz concreto e é personalizado. Especialmente o cristão não pode sustentar a ideia de que devemos amar a todos sem amar ninguém, pois somente a cultura da proximidade é capaz de anunciar o Cristo.

 

OBRIGADO, PADRE!

(05/08/22)

 

          No dia 4 de agosto, recordamos o “Dia do Padre”. Esse homem que Deus escolheu e preparou para que assumisse uma missão na comunidade. Fico pensando como essa região central do Estado do Rio Grande do Sul precisa agradecer a tantos padres que ajudaram a desenvolver nossos Municípios. Sem correr o risco de esquecer alguém, destaco apenas alguns feitos de sacerdotes que, amando a Igreja e o povo que lhes foram confiados, acabaram promovendo sua região.

             Prefiro destacar os frutos dessas árvores que já partiram, mas que deixaram um legado inesquecível: a devoção à Medianeira em Santa Maria, a construção da Catedral, a Gruta de Nossa Senhora de Fátima de Nova Esperança do Sul, as árvores petrificadas de Mata e o Centro Genealógico de Nova Palma são apenas alguns exemplos de um elenco que poderia ser bem maior. Somos gratos a todos esses padres. Igualmente, precisamos recordar os trabalhos pastorais, sociais e culturais de tantos presbíteros que por aqui deixaram marcas indeléveis.

             O padre é constituído pastor de um rebanho que não lhe pertence, pois Cristo é o Senhor de todos. Cuidar de um rebanho tão precioso é um privilégio e uma responsabilidade. O padre, embora pastor, permanece sendo discípulo do único Mestre, aprendiz na escola do Evangelho.

             O presbítero se configura diariamente a Cristo. Precisa rezar profundamente, para ter um coração de Bom Pastor, pois é fácil ser seduzido pelos desvios do caminho do Mestre. Ele precisará abraçar a cruz a cada dia, pois a Boa Nova do Evangelho sofre resistência diante daqueles que teimam em matar a força vivificante e libertadora da Palavra de Deus. Por presidir a Eucaristia, ele é capaz de esperar o Reino que virá com a certeza de sentir sua antecipação em cada altar. O que implica relativizar toda presunção mundana que tende a absolutizar o provisório.  Por isso, ele pode denunciar criticamente toda miopia da realidade que pretenda colocar o penúltimo no lugar que somente ao último compete. 

             Como deve ser um padre de nosso tempo? Talvez um manuscrito medieval possa bem traduzir essa expectativa: um padre deve ser, ao mesmo tempo, pequeno e grande, nobre de espírito, como de sangue real e simples e natural como um camponês. Deve ser uma fonte de santificação, porque também se sente um pecador que foi perdoado. Alguém que não se abaixa diante dos soberanos, mas que se curva diante dos pobres e sofredores. Um discípulo do seu Senhor e também o pastor do rebanho que o Senhor lhe confiou. Um mendicante de mãos largamente abertas e um portador de inumeráveis dons. Um homem forte no campo de batalha e um pai que conforta os doentes. Deve ter a sabedoria da idade e a confiança de uma criança. Ainda:  ser firme rumo ao alto e seguro com os pés bem plantados sobre a terra, feito para a alegria do Evangelho e um perito que aprendeu a sofrer por amor. Um homem que fala de Deus para seu povo e fala de seu povo ao seu Deus.

​​O DOM DOS AVÓS NA FAMÍLIA

(22/07/22)

              Dia 26 de julho é a data comemorativa de Santa Ana e São Joaquim, os pais da Virgem Maria e avós de Jesus. Por isso, comemora-se, também o dia do avô e da avó.  Aqui quero manifestar minha alegria e gratidão por tantos homens e mulheres que são avós e ajudam seus netos no caminho da vida, tendo o coração e os olhos serenados pela experiência, são capazes de fortalecer os que ainda têm muito a aprender. Especial destaque merecem aqueles avós que mostram a fé para seus netos. Eles mostram para crianças e jovens que a correria do cotidiano e a agitação ao nosso redor não durarão para sempre. Tudo passa. Será preciso aprender com a idade a adquirir sabedoria.

             É preciso estar sensível ao entardecer da existência. É o tempo de uma vida que tende a enfraquecer, quando as paixões se abrandam e a emotividade torna-se menos incitada; quando as fantasias se rendem menos às miragens.  É uma etapa na qual é preciso superar a contraposição entre idade da força, dos jovens, e idade da fragilidade dos idosos. É necessário vencer a crise de sentir-se sempre doente, em busca de uma juventude perdida ou de um rejuvenescimento a qualquer custo.

           Certamente é difícil envelhecer. É verdade que a pessoa não pode ocultar sua velhice, mas nos idosos permanece a inteligência, a capacidade de meditar, a possibilidade de amar e de partilhar pensamentos, ideias e sentimentos. Tudo isso supõe que as pessoas se preparem para envelhecer.

          Importante é ser jovial, ainda que com idade avançada. Isso depende de uma profunda experiência com o Deus da Vida, como bem recorda o salmista sobre aquele que tem fé: “Mesmo na velhice dará fruto, estará viçoso e frondoso, para anunciar que Deus é reto.” (Sl 92,15-16). 

             Envelhecer pode e deve ser entendido como um fenômeno de crescimento, aprendizagem e amadurecimento. Nunca é tarde para aprender, especialmente quando se trata de viver mais e melhor.

             Pesquisadores que conciliam geriatria e espiritualidade constatam como a busca de um sentido para a vida, a prática do bem e a fé em Deus, com o avançar da idade, amenizam o impacto dos sofrimentos e dos revezes da vida, e mais, melhoram as condições da saúde física e da mental.

             A espiritualidade no envelhecimento precisa despertar para o sentido de esperar no futuro. A finitude da vida não significa o fim de tudo e tampouco do ser. Muito bem nos recorda São Paulo: “Por isso não nos deixamos abater. Pelo contrário, embora em nós o homem exterior vá caminhando para a sua ruína, o homem interior se renova dia-a-dia.” (2Cor 4,16) Na beleza dessas palavras, está a certeza de que todo tempo é oportuno para crescer. Interiormente, sempre estamos avançando rumo a Cristo, superando limites e barreiras que nos impediram de amar livremente, como Jesus ensinou. Pode ser que a vida tenha endurecido um pouco o coração de algumas pessoas. Todavia, na velhice, se houver sabedoria, é possível “amaciar” essa rigidez.

 

QUAL BELEZA SALVARÁ O MUNDO?

(15/07/22)

              O humano sempre se encantou pela beleza. Mas nem toda beleza é boa e verdadeira. Num mundo sem beleza, ou mais precisamente, equivocado do sentido do belo, até o bom e o bem perdem sua força. O ser humano permanece perplexo diante das múltiplas opções e se questiona por que não escolher o mal, o prazer sem limites, uma vida sem compromisso e os sentimentos sem responsabilidades.

             Apesar de todas as frustrações dos sonhos de um mundo melhor, de uma civilização mais justa e fraterna, de um planeta harmonizado, permanece o desafio de salvar a vida e o globo através da beleza, pois só ela é necessária, como bem alerta Dostoiévski “Sabeis que a humanidade pode fazer pouco dos ingleses, poderá fazer pouco da Alemanha, que nada é mais fácil para ela do que fazer pouco dos russos, que para viver não precisa nem de ciência e nem de pão, mas que apenas a beleza é indispensável porque sem beleza não existirá nada mais a fazer neste  mundo”.

             No mundo antigo, por exemplo, um objeto só passava a ser feito em ouro depois de constatada sua utilidade e função. A beleza constitui, portanto, uma das faces da trindade ideal do verdadeiro, do bom e do belo.

             Por causa de sua aparência sensível, a beleza também é ambígua. A beleza pode ser frequentemente enganosa e o seu fascínio pode esconder a falta de moral e uma indiferença para com a verdade.  Não é por acaso que o diabo é chamado de Lúcifer, o anjo da luz, que perverteu sua bondade original e tornou-se o anjo das trevas.  E também pode-se dizer que o mal também se reveste de beleza para seduzir. O paradigma mais antigo dessa realidade é o relato bíblico do fruto proibido: “a mulher viu que o fruto da árvore era bom de comer, de agradável aspecto e desejável”. (Gn 3,6). Trata-se da sedução do prazer imediato que brilhou mais do que a distinção entre o bem e o mal. A beleza fascinou o ser humano, usurpou o lugar do Divino, tornou indiferente o bem e a verdade. O que é agradável aos sentidos e estético no mais alto grau, nem sempre é verdadeiro. Não é somente Deus quem se reveste de beleza, o mal lhe imita e torna a beleza profundamente ambígua.

             Conta-se que certa feita, numa cidadezinha da Itália, programou-se que uma grande atriz, então considerada a mulher mais bela do mundo, desfilasse em carro aberto nas ruas centrais do vilarejo.  Um operário chega em casa e avisa a família para se preparar para que todos pudessem ver a mulher mais bela do mundo. Seu filho, com pouco mais de sete anos de idade, estranhou aquela afirmação. Quando todos estavam na praça, passou a atriz belíssima. Todos aplaudiram e o pai até colocou o menino sobre os ombros, para que pudesse melhor enxergar a celebridade. Ao ver a atriz, o menino exclamou convicto: “Questa non é la moglie piú bella del mondo!” (Esta não é a mulher mais bela do mundo). Todos insistiam com ele que era sim. Ele reagiu com maior veemência: “La mamma é la piú bella!” (A mamãe é mais bonita). O que é realmente a beleza que salva a vida?

A IGREJA PERMITE A CREMAÇÃO?

(08/07/22)

 

            Cresce na sociedade atual a prática da cremação. Essa nova postura diante do corpo dos falecidos suscita uma reflexão sobre o sentido do findar a existência.

             Na antiguidade, a prática da cremação provinha de duas razões diferentes: a necessidade de trazer de volta os soldados mortos, para receberem sepultura em sua pátria, como ocorria entre os gregos; ou por convicções religiosas, como entre os escandinavos, que acreditavam assim libertar o espírito de seu invólucro carnal e evitar que o morto pudesse causar algum mal aos vivos.

             Era prática judaica enterrar os mortos na terra ou em túmulos de pedra. Não era costume judeu cremar os corpos e contemplavam essa prática com horror. Os cristãos seguiram o exemplo judaico no que concerne ao respeito aos mortos. Aceitavam o ensino de que o corpo do cristão é o Templo do Espírito Santo e, como tal, deveria ser respeitosamente enterrado. Os cristãos primitivos procuravam sepultar seus mortos num mesmo lugar, dando a esse lugar o título de cemitério, cujo significado é dormitório.

             O Cristianismo sustenta claramente que os mortos ressuscitarão e a sua identidade pessoal será restaurada em plenitude. Por isso, a Igreja sempre se opôs à cremação dos corpos de seus fiéis, ao passo que sempre permitiu uma certa variedade de enterros, seja a princípio dentro de igrejas no caso dos mártires, ou nos jardins das igrejas, em solos consagrados fora da cidade ou mesmo em cemitérios seculares.

             Atualmente, a Igreja Católica não põe qualquer objeção à cremação, mas dá preferência ao sepultamento. O que deve ser garantido é que a cremação não seja expressão de oposição à esperança na ressurreição.

             Contudo, a Igreja exorta que não se esparjam as cinzas dos católicos na natureza. O corpo é concreto e é um sinal sensível. O que resta do corpo é um sinal de referência. Daí o valor de conservar com respeito as cinzas e de não as dispersar.  Prefere-se que a urna que contém as cinzas seja depositada em local apropriado, sejam em columbários, espaços apropriados para deixar as urnas, em locais especiais. Igualmente é desejável que o católico coloque a urna num cemitério, no túmulo de algum parente. Enfim, há igrejas que dispõem de locais para essa finalidade, como o subsolo da Basílica da Medianeira em Santa Maria. 

          Na morte nós voltamos para Deus e não para a natureza. É outra razão simbólica para que as cinzas não sejam espalhadas, embora o Criador possa reconhecer os seus sem que, nem o fogo que incinerou os corpos e nem o verde da natureza que os absorveu, possa impedir.

             De qualquer forma, cuidar do corpo dos mortos é uma prática cristã antiga.  Em sua obra De Cura pro Defunctis Gerenda, (sobre os cuidados que se deve ter pelos mortos), Santo Agostinho declara que embora o morto não saiba o que está acontecendo na terra, as observâncias dos ritos funerais indiretamente proporcionam-lhes benefícios na medida em que os vivos que visitam suas tumbas são levados a recordá-los e orar por eles.

 

CASA PAPA FRANCISCO

(01/07/22)

            Dia 18 de junho passado, inauguramos, na cidade de Santa Maria, a Casa Papa Francisco, onde estão residindo os freis da Fraternidade O Caminho. No coração da cidade, esta casa tem portas abertas para todos os que mais precisam. Especialmente a população em situação de rua lá poderá encontrar um banho quente, uma lavanderia disponível, pernoite e outros apoios. Sobretudo, este espaço visa ajudar cada irmão e irmã que sofre a resgatar sua dignidade humana. Esta dignidade todos temos, alguns, porém, perderam ou lhes foi negada tal condição.

             Certamente há muitas iniciativas em nossa região que promovem a dignidade das pessoas empobrecidas. Recordo as muitas obras sociais que cuidam de crianças, jovens e idosos em situação de vulnerabilidade.  Preciso mencionar os intensos esforços por uma educação mais humana e solidária em meios aos graves desafios que enfrentamos no campo educativo. Também merecem destaques: o cooperativismo, a economia solidária e os projetos sociais que transformam vidas e famílias.

             Nesse contexto, com o apoio de tantas pessoas e entidades, a Igreja Católica em Santa Maria inspira-se no ensinamento e na prática do Papa Francisco para fortalecer a solidariedade. É urgente recuperarmos nossa capacidade de empatia, de colocar-nos no lugar do outro. Quem pode ficar tranquilo nesses dias frios de inverno, sabendo que pessoas estão na rua? Como sossegar se há quem não tenha como alimentar seus filhos? Como ler os altos índices de pobreza que crescem entre nós, sem procurar suas causas?

             A Casa Papa Francisco poderá ser apenas uma gota de água neste oceano complexo da pobreza que desafia todo ser humano que vive nesta cidade, mas o mar seria menos sem essa gota. Assim, pensava Santa Teresa de Calcutá. Podemos fazer algo por alguém e hoje. Somos profetas da esperança, porque cremos que um mundo mais justo, solidário e fraterno é possível. Nós temos um só Pai, ainda que nem todos reconheçam. Não vivemos na orfandade e por isso somos impelidos à fraternidade.

             Em 2013, afirmou o Papa Francisco: “Com obras e gestos, a comunidade missionária entra na vida dos outros, encurta as distâncias, abaixa-se – se for necessário – até a humilhação e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo”. Com os irmãos da Fraternidade, espero que toda a Igreja de Deus que está em Santa Maria saia de si para se aproximar de quem precisa.  Mas, espero que toda sociedade santa-mariense perceba que é urgente trabalhar sempre mais pelos pobres.  Para isso, não existem muros ou fronteiras. Doar sempre faz bem. Como diz uma música do cancioneiro católico: “Fica sempre um pouco de perfume nas mãos que oferecem rosas”.  Quem oferece, também ganha.

             Convido, portanto, toda pessoa capaz de empatia e comprometida com o bem dos outros, a visitar a Casa Papa Francisco. Ninguém é tão pobre que não tenha algo a partilhar, e ninguém é tão rico que não careça de algo. Creio firmemente que muitas de nossas enfermidades se originam do nosso fechamento. Quanto mais saímos de nós mesmos, mais nos encontramos. Não podemos nos perder no emaranhado de um mundo ensimesmado.

CUIDAR DA FAMÍLIA

(24/06/22)

            De 22 a 25 de junho ocorrerá, em Roma, o X Encontro Mundial das Famílias. O tema a ser refletido será: Amor em família: vocação e caminho de santidade.  O encontro terá um caráter multicêntrico e disseminado, ocorrendo simultaneamente nas diversas dioceses do mundo.

             Um ponto a ser destacado é que as famílias precisam procurar mais a vida comunitária. Na sociedade individualista de hoje, onde as famílias sofrem com a solidão e o isolamento, principalmente em situações de grave dificuldade, o ambiente comunitário torna-se essencial para fortalecer as famílias, fazendo seus membros sentirem que não estão sozinhos ao enfrentar desafios como a crise de relacionamentos, a educação dos filhos, as doenças, o luto, e as dificuldades econômicas.

             Na relação entre o esposo e a esposa, entre pais e filhos, e entre irmãos, o ser humano aprende que não vem a este mundo pronto e acabado. Nascemos incompletos, porque precisamos do outro para nos cuidar, ensinar a caminhar e a falar e, em última análise, para viver. Quem se torna independente de todos, reivindicando uma autonomia absoluta, desiste de se completar na rica diversidade do amor compartilhado.

             Mas sabemos que muitas pessoas carecem de uma família. Há uma orfandade em muitos corações, porque há quem prefira seguir seus sonhos esquecendo que cada um de nós é parte do projeto de vida dos outros. Compartilhamos esperanças e preocupações.  A dor de uma ruptura no amor familiar precisa mais de cuidado do que de acusadores, carece mais de atenção do que de julgamentos. E o fato de que muitos não tenham conseguido alcançar o ideal do amor em família não significa que esse projeto de paternidade e fraternidade tenha falido.  Nosso tempo pode ter grandes dificuldades em lidar com esses valores, mas eles permanecem desafiando cada geração a recuperar a essência de saber conviver em família como expressão de uma autêntica existência aberta aos outros. A família, a escola e a comunidade religiosa são espaços fundamentais para uma criança se completar em suas múltiplas aprendizagens ao longo da vida.

             Igualmente precisamos recordar as famílias atingidas por contingências que as abalaram: uma doença, uma perda, um acidente, uma crise econômica, um imprevisto. Aqui está o desafio das demais famílias em se abrirem para ajudar a superar as faltas e, solidariamente, viver numa comunidade onde todos possam se desenvolver, não obstante os revezes da vida. Situações especiais, difíceis e até incompreensíveis precisam de pessoas solidárias e capazes de cuidar.

             A vocação à santidade de uma família é a de não idealizar, mas de acolher as diversas situações e provações, como oportunidade de viver a graça de Deus, que sempre nos acompanha, nos chama à conversão dos nossos estilos de vida, mesmo quando parece que a noite e o frio invadem o coração do lar.

             Pais e filhos, avós e netos, certamente podem estabelecer novos rumos em suas vidas quando se sentem corresponsáveis uns pelos outros. Uma família, vivendo entre luzes e sombras a sua vocação, é o maior exemplo de fraternidade que o mundo pode receber. Não somos órfãos, temos um Pai que nos quer todos irmãos.  A falta desse senso de paternidade comum, de família comum, pode ser uma das grandes causas da falta de fraternidade.

CORAÇÃO INQUIETO

(17/06/22)

         “Fizeste-nos para vós, Senhor, e inquieto estará o nosso coração, enquanto não repousar em vós”. Esta famosa frase de Santo Agostinho revela o sentido da Festa do Sagrado Coração de Jesus que celebramos em junho. Nós temos desejo de Deus, assim fomos feitos, e somente no coração de Deus é que podemos ter sossego de tantas buscas, caminhos e desvios que vivemos no tempo que temos neste mundo. 

             Sabemos que o coração é um órgão vital. Mas na tradição judaico-cristã há um alargamento de sua compreensão.  O termo “coração” na Bíblia é escrito em hebraico לֵב - léb e em grego καρδία - Kardia, e aparece aproximadamente mil vezes no texto sagrado, com diferentes significados.  Além do sentido físico, há o significado psicológico, quando se diz que coração humano entende, percebe e reflete. Inclusive, nosso tempo reconhece o coração como lugar das emoções, chegamos até a dizer que “há um aperto no coração”, ou que “o coração está sofrendo”.  Igualmente pode-se dizer que certas notícias trazem alegria ao coração.

             O coração, entretanto, é especialmente importante na religião bíblica. São Paulo escreve que o coração humano é o lugar do nosso conhecimento de Deus (2 Co 4, 6) e da morada divina (2 Co 1,22; Gl 4, 6; Ef 3,17). De outra parte, um coração mau pode ser o daquele que se afasta de Deus e procura substituí-lo pelos ídolos do egoísmo, do materialismo ou do poder. 

             Essa pluralidade de significados permite compreender o coração de Jesus.  Todo o ser de Jesus de Nazaré reflete sua interioridade profundamente marcada pela compaixão e misericórdia; esta, literalmente, significa “coração voltado para a miséria”; atitude de cuidado e amor para quem precisa.  Não há melhor expressão para caracterizar os gestos de Cristo em seus dias na Palestina, do que a misericórdia.

             Seu olhar e seus pés se dirigiam para onde seu coração indicava. Viu como o povo estava sem líderes e perdido, por isso teve profunda compaixão, pois pareciam ovelhas sem pastor. E, por isso, ele mesmo se identificou com o Pastor segundo o coração de Deus, que não permite que as ovelhas se percam ou fiquem reféns dos lobos.  Suas palavras proclamam um tempo novo, suas atitudes e gestos confirmam seu discurso e todo seu ser expressa o coração amoroso de Deus que é Pai.  Por tanto amar e não ser correspondido, por ensinar o perdão, a partilha e a paz, foi crucificado; e seu coração foi traspassado pela lança do soldado. Daquele coração humano e divino, jorrou sangue e água. Sinais da vida nova que o Crucificado trouxe à humanidade.

             Naquele sagrado coração, a humanidade pode confrontar cada escolha e decisão no tempo.  Ninguém fica neutro diante de Jesus, ou se constrói um mundo mais altruísta, solidário e responsável no amor, ou se endurece o coração optando por caminhos fechados. A Festa do Sagrado Coração remete que um outro coração, mais compassivo, é possível.  É como também escreveu Santo Agostinho: “Vosso Coração, Jesus, foi ferido, para que na ferida visível contemplássemos a ferida invisível de vosso grande amor”.

 

CORPUS CHRISTI: Adorar o Corpo de Cristo e servi-lo nos pobres

(10/06/22)

          Corpus Christi, do latim, Corpo de Cristo, designa a festa litúrgica que a Igreja católica celebra na quinta-feira depois da festa da Santíssima Trindade, para comemorar de modo particular a Eucaristia, instituída por Cristo durante a Última Ceia, quando ofereceu a seus discípulos no pão e no vinho o Seu corpo e Seu sangue, memoriais da nova e definitiva aliança. Cada Santa Missa atualiza esse sacrifício de amor de Jesus. Essa solenidade foi instituída em 1247 por iniciativa de Santa Juliana na Bélgica e em 1264, com o Papa Urbano IV foi estendida a toda a Igreja católica.

          A celebração ocorre numa quinta-feira, em referência à Quinta-feira Santa, que celebra a instituição da Eucaristia no contexto do Tríduo Pascal. No dia de Corpus Christi os cristãos católicos expressam publicamente a sua fé no Corpo e no Sangue de Cristo. Comunicam nas ruas e praças o que celebram cotidianamente no interior dos templos: a fé de que Cristo está verdadeiramente presente no pão e no vinho consagrados. O Corpo de Cristo é adorado nos altares, carregado no ostensório, recebido em comunhão e levado aos enfermos. Para marcar esta festa, surgiu o costume de adornar as ruas com tapetes por onde o Cristo na hóstia consagrada é levado em procissão.

          Mais recentemente, na fidelidade ao que o Evangelho ensina e com o olhar voltado para a realidade de fome e miséria que crescem entre nós, tem se consolidado um novo costume: enfeitar a festa com a nossa solidariedade.

Comungar o Cristo é uma graça. Toda graça é dom que reclama uma resposta, um compromisso. Afinal, o amor é reciprocidade. Ao receber o Corpo dado e o Sangue derramado na cruz, o cristão se compromete também em participar da missão do Mestre que declarou “Eu vim para que todos tenham vida e vida em abundância” (Jo 10,10).

          É por isso que na procissão de Corpus Christi recolheremos alimentos, agasalhos, e recursos para a nossa população carente.  Não se trata de esmola, mas de justiça, pois ao irmão que passa necessidades, o Pai exige a fraternidade de seus filhos. Trata-se de um clamor para alinhar culto e ética, liturgia e compromisso social.

Essa tradição de associar a Eucaristia ao serviço da caridade é tão antiga como o Cristianismo, pois vincula estreitamente o amor ao Corpo de Cristo servindo-o no corpo dos pobres. É o que atesta São João Crisóstomo, arcebispo de Constantinopla (atual Istambul) no século IV: “De que serviria, afinal, adornar a mesa de Cristo com vasos de ouro, se ele morre de fome na pessoa do pobre? Primeiro dá de comer a quem tem fome, e depois ornamenta sua mesa como que sobra”. 

 

PENTECOSTES: O SOPRO DIVINO

(03/06/22)

          O Pentecostes é celebrado cinquenta dias depois da Páscoa. Essa festa cristã tem origem na liturgia dos judeus que celebravam a festa das colheitas. Era também chamada festa das semanas, pois acontecia sete semanas depois da Páscoa.  Os judeus comemoravam neste dia a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai, quando Deus fez uma Aliança com o Povo de Israel. Desde a criação, sua presença é atuante na obra de Deus. Na tradição israelita, o espírito de Deus é chamado de ruah, o vento ou sopro de Deus, o hálito de vida. 

             Para os cristãos, a festa recorda o dia em que povos diversos acolheram a mensagem de Cristo e se tornaram seus discípulos. São Lucas, ao escrever o livro de Atos dos Apóstolos, menciona a descida do Espírito Santo para expressar que o próprio Espírito passa a conduzir aqueles que aderiram aos ensinamentos de Cristo Ressuscitado.

             Após a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, o livro dos Atos dos Apóstolos narra que seus discípulos ficaram repletos do Espírito e começaram a falar em outras línguas. Lucas vê nesse evento a restauração da unidade perdida em Babel, símbolo da missão universal dos apóstolos. O dom principal do Espírito é possibilitar que o Evangelho de Jesus seja compreendido por todos, cada um em seu idioma. Seu anúncio não fica restrito a um único povo, mas é destinado a todas as culturas, povos e línguas da Terra. O Espírito faz com que cada povo perceba que a Palavra de Deus é salvação e vida em plenitude.

             Crer no Espírito Santo é crer na terceira Pessoa da Santíssima Trindade que participa da mesma divindade do Pai e do Filho. Ele não é inferior em relação às duas Pessoas da Trindade, e igualmente é adorado e glorificado com o Pai e o Filho.

             O Espírito acompanha toda a vida de Jesus de Nazaré, e é enviado aos seus discípulos em Pentecostes, quando estão reunidos no Cenáculo. Ele está no início da Igreja e a acompanhará até ao fim dos tempos, onde acontecerá a consumação de toda a criação.

             A sua atuação na Igreja realiza os mesmos acontecimentos de salvação, ajuda e consolo que Jesus fez em sua vida: o dom de curar os doentes, perdoar os pecados, abençoar as pessoas. O Espírito Santo dá vida à Igreja, anima as iniciativas de evangelização e as ações de fazer o bem às pessoas. Sem o Espírito, a liturgia da Igreja seria apenas um ritualismo, sem nenhum sentido e sem valor de salvação. Nossa oração não passaria de um palavreado dito a ninguém, apenas uma forma de pensamento.

             O Espírito não faz Jesus ser apenas um nome a ser lembrado.  Ele faz Jesus ser uma presença real na vida da comunidade cristã. Sem Ele, Jesus teria ficado apenas como um bom exemplo do passado sem atualizar o “hoje” de sua salvação para todos os momentos da história. O Espírito Santo foi o último a ser revelado das três divinas pessoas, mas é o primeiro que desperta a fé nas pessoas e as conduz ao encontro com Jesus e o Pai. É na força do Espírito Santo que podemos reconhecer que Jesus é o Senhor e Salvador.

ASCENSÃO: ELE SUBIU PARA ELEVAR-NOS

(27/05/22)

 

         Após quarenta dias da Páscoa, a Igreja recorda a Ascensão de Cristo. Celebra o que se reza no Creio, ao proclamar que Jesus “subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso”.  Alguém poderia perguntar qual o sentido dessa festa para o nosso cotidiano? O início do livros dos Atos dos Apóstolos narra que ao concluir 40 dias de aparições, o Ressuscitado  foi “elevado ao céu”(At 1,9). E, enquanto os apóstolos olhavam para o céu, anjos exortaram os discípulos a esperar sua volta (At 1,11). O texto também indica que Jesus foi “elevado entre nuvens”. Essa imagem é retirada do Antigo Testamento, onde a nuvem é tida como sinal do mistério da presença de Deus que se revela e se esconde ao mesmo tempo. Tudo é nebuloso porque é próximo e simultaneamente oculto.  Distante e próximo é o Cristo que se revela e se esconde no mistério da sua Páscoa e Ascensão. Ele sobe ao céu e permanece próximo da humanidade.

             O subir e o elevar-se, neste caso, não indicam um lugar, mas a exaltação de Cristo. Jesus de Nazaré, Crucificado, ao ressuscitar, foi reconhecido como o Messias, o Cristo. Mais, ele foi revelado como o Senhor, o Filho, que é também adorado e glorificado como Deus. Subir aos céus, portanto, não alude à mera elevação a um espaço, mas ao reconhecimento de sua dignidade de Deus que senta à direita do Pai. No contexto oriental, essa expressão indica que ele participa do mesmo poder do Pai. Podemos dizer que o céu é onde Deus está. Mais do que um lugar ou um espaço delimitado, o céu é uma presença. Onde está Deus, aí está o céu.

             Ainda nos resta entender o sentido dessa Festa para o cristão e para a humanidade de todos os tempos.  Se contemplamos Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, considerando que a Ascensão elevou até o Pai também a natureza humana de Jesus Cristo, entendemos que a nossa humanidade entrou no mais íntimo de Deus. A mesma natureza que fez Jesus chorar a morte de seu amigo Lázaro, contemplar os lírios do campo e os pássaros do céu, compadecer-se dos enfermos, tocar o leproso, acalmar o mar e carregar o lenho da cruz, encontra-se, agora, elevada à Trindade Santa, pois o Filho, ao ser elevado ao céu,  carregou consigo toda experiência do Crucificado-ressuscitado. Nada que é humano é estranho ao Senhor. Ele que se fez carne como todo ser humano, exceto no pecado, pode elevar também toda humanidade, redimida pela sua Páscoa, até  Deus.  Tudo que  é humano interessa ao Senhor, que deseja salvar a todos.

             Cabe-nos trabalhar agora para que a humanidade caminhe confiante nos passos de Cristo. A missão do discípulo é anunciar e testemunhar que um novo mundo está preparado para a humanidade. A tarefa que se impõe a todo seguidor de Jesus  é a de servir os seres humanos, tocar suas chagas, curar suas feridas e fazer como Jesus: passar pelo mundo fazendo o bem. Afinal, entre a promessa e a sua relização, somos movidos pela esperança que nos torna fraternos, mas também  nos faz acreditar na vida celeste que deve qualificar a existência terrestre. Que seja, assim na Terra como será no céu!

BENDITOS VENTRES

(20/05/22)

        Maio é o mês dedicado à Virgem Maria. No dia 31 recorda-se uma passagem importante do Evangelho de Lucas, quando Maria, mãe de Jesus, visita sua parenta Santa Isabel, mãe de João Batista. As duas mulheres grávidas de seus respectivos primogênitos, inspiram todo ser humano a compreender o mistério da maternidade, que pode fazer chegar até nós, o Criador de todas as coisas. Em Maria, a criatura gerou a carne do Deus que quis se fazer humano. Esse mistério é tão desconcertante que até hoje muitos se questionam sobre a possibilidade de Deus vir a nós como criança nos braços de Maria. Mistério não é segredo na teologia, mas desígnio. E este, mais do que ser compreendido, precisa ser, antes, acolhido.

             Após a Anunciação do Anjo Gabriel, Maria vai às pressas à Judeia para se encontrar com Isabel. Essa atitude revela que a Mãe de Jesus vai para servir sua parenta anciã. Vai apressadamente. Chegando à casa de Isabel, Maria constata tudo o que Gabriel lhe havia dito. Isabel, ao ver Maria, exclama: Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido (Lc 1, 45). A jovem de Nazaré experimenta, então, que para Deus nada é impossível: se Isabel concebeu, apesar de sua esterilidade, Maria conceberá, apesar de sua virgindade.

No relato da visitação, Isabel proclama que Maria é a mãe do Senhor (Lc 1,43), indicando uma maternidade messiânica. Maria é a mãe do messias, daquele que recebe o predicado divino “Senhor”. Ela é a mãe do Kyrios, a mãe de Jesus Cristo, o Senhor.

             A visitação de Maria a Isabel é sinal antecipado da visita que Deus fará a seu povo. Maria, escutando a Palavra e acolhendo o mistério, vai ao encontro de Isabel que representa todo o povo de Israel que aguarda o Messias. Quando Maria chega, Isabel reconhece quem a está visitando: o Senhor. Da mesma forma, Israel deverá reconhecer quem está chegando. No encontro Isabel e Maria, se abraçam o Antigo e o Novo Testamento, a promessa e o cumprimento. A visita ocorre por iniciativa de Maria, aquela que acreditou no cumprimento da palavra do Senhor.

             Nos ventres dessas duas mães crescem aqueles que mudarão a história da humanidade para sempre. João preparará um caminho novo, nunca antes visto e apontará a chegada de um salvador, de um messias. Jesus realiza toda expectativa de séculos de uma promessa que chega à plenitude. Ele é Deus conosco. Bendito os ventres que nos trouxeram tão magnânima novidade que jamais envelhece.

 

FÁTIMA, UMA MENSAGEM DO CÉU

(13/05/22)

        No dia 13 de maio recordamos a aparição da Virgem Maria, em Fátima, Portugal, no ano de 1917 a três pastorinhos: Lúcia, Francisco e Jacinta. A mensagem de Nossa Senhora recordava a necessidade de uma volta aos valores da fé para resgatar a dignidade humana, sempre ameaçada por tantos descaminhos que se apresentam na história.

             Até hoje, Fátima acolhe milhares de peregrinos que visitam o lugar onde, sobre uma azinheira, a Mãe de Jesus, falando numa linguagem quase que simbólica, suplicava pela paz no mundo. A Virgem de Fátima pede ao ser humano para retornar ao essencial, para ir ao encontro de Deus, para não perder o humano, para ser mais compassivo, justo e solidário. Ela fala a todo que sofre para que recupere a esperança. Ela tem um olhar misericordioso onde o humano marcado pelo horror da guerra, da fome, da injustiça, da mentira e da corrupção possa encontrar paz. Ela alerta sobre o risco de uma apatia crescente em relação a Deus e aos sofredores. E insiste ao ser humano para rever suas escolhas.

             Certamente há quem duvide de pastorinhos videntes. A objetividade das aparições, contudo, está no fato de gerarem a experiência da fé no coração das pessoas. Trata-se de um apelo do céu para a conversão ao Evangelho de Cristo. Há duas linguagens para o acesso à realidade: uma é a das visões, do imaginal, do simbólico; outra é a científica e verificável.  Ambas devem estar em relação. Um cientista arraigado em suas pesquisas não precisa abandonar sua espiritualidade ou mesmo deixar de acolher a mensagem de uma aparição mariana.

             No intuito de ser profética, uma aparição mariana denuncia a miopia da realidade na qual as pessoas vivem e anuncia caminhos novos de vida e esperança.  Os videntes tornaram-se alvo de muitas críticas, no primeiro instante. Os pastorinhos sofreram torturas psicológicas severas. Eles sofreram muitas dificuldades para anunciar o que lhes fora solicitado.

             Essas aparições de Nossa Senhora dão a entender que o sobrenatural não está distante ou ausente dos dramas e perigos pelos quais a humanidade passa. Na infinita comunicação amorosa de Deus se conhece uma miríade de formas, mensagens e sinais.  A Mãe de Jesus participa, de maneira singular, desta comunicação entre Céu e Terra. Suas aparições sempre estão aureoladas de luz, porque iluminam as sombras da realidade na qual a humanidade se encontra.

             Diante das crises deste tempo, Fátima ainda é um apelo ao ser humano para que alcance sua verdadeira liberdade de construir um mundo mais justo e fraterno, mais solidário e feliz. Para isso, Nossa Senhora continua a repetir o apelo à oração e conversão.  Nem todos entendem, mas os sinais que lá acontecem há mais de cem anos, revelam algo que está muito além da aparência. São sinais do céu sobre a terra.

MÃE: VOCAÇÃO AO AMOR

(06/05/22)

        Por ocasião do dia das mães multiplicam-se gestos e palavras que expressam o carinho e amor dos filhos. Entretanto, no cotidiano é preciso ir além das homenagens, pois permanece o desafio de reconhecer melhor o papel da mãe numa família. Na pluralidade das experiências, pode-se contatar que a maternidade pode ser compreendida por diferentes ângulos. Desde a mãe que acompanha seu esposo na criação dos filhos, a mãe que gerou no coração o filho adotivo, a mãe que criou sozinha seu filho e tantas outras formas de exercer essa nobre missão. Igualmente não há uma forma única de compreender-se filho. Entretanto, para refletir sobre o significado da maternidade em nossos dias, recolhemos algumas afirmações do Para Francisco que ajudam a alargar nosso reconhecimento a todas as mães.

             Ser mãe, numa sociedade de contrastes, é crer que a vida é mais forte e a capacidade de esperar dias melhores se renova a cada criança que nasce. Uma mãe é capaz de testemunhar que a vida do outro sempre tem dignidade e sacralidade, trata-se de um antídoto contra o individualismo egoísta. Para o Papa Francisco, “uma sociedade sem mães seria uma sociedade inumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a entrega, a força moral”. A maternidade é uma experiência que humaniza.

             Ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, é uma escolha de vida; uma opção de gerar, cuidar e fazer crescer os filhos. O que impele é a força do amor. Uma mãe sabe acompanhar com discrição e ternura o caminho dos filhos e até quando erram procura o modo de compreendê-los, para estar próxima e prestar a ajudar.

São Tomás de Aquino escreveu que é próprio da caridade querer mais amar do que querer ser amado. Este princípio fica evidente na maternidade. De fato, em geral, as mães são as que procuram mais amar do que ser amadas. Nesse amor gratuito, há até aquelas que chegam a dar a vida para que seus filhos vivam, seguindo o que Jesus ensinou: não há maior amor do que dar a vida (Jo 15,13).

             E às mães cristãs, vale recordar do valor de rezar incessantemente pelos seus filhos, como fez Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Por suas orações, as mães acompanham seus filhos até mesmo quando os desafios parecem retirar-lhes toda esperança. Mãe entende o que significa confiar no filho e esperar que supere todas as dificuldades. Enfim, é necessário agradecer às mães pelo que são para seus filhos, para a família e o mundo. São a expressão de que o amor vale a pena!

 

SÃO JOSÉ TRABALHADOR

(29/04/22)

 

        Dia Primeiro de Maio comemora-se o dia do Trabalhador, nesta data, a Igreja celebra a Festa de São José Operário.  O santo Pai legítimo de Jesus tem duas datas para ser recordado no calendário. Seu dia é 19 de março. Mas o primeiro de maio associa esse importante guardião do Redentor ao seu trabalho: carpinteiro.  Possivelmente, essa profissão ele herdou do pai, uma vez que era costume da época o pai transmitir a profissão ao filho.

             Ele foi carpinteiro em um lugarejo nas montanhas onde moravam os lavradores humildes, com casas pobres e simples. Assim, teve que se adaptar produzindo objetos rústicos e com técnica limitada. O carpinteiro, no tempo de Jesus, era aquele operário que sabia fazer de tudo com a madeira. Era uma profissão apreciada pelo povo.

             Sendo que a profissão era transmitida de pai para filho, provavelmente Jesus também foi carpinteiro em virtude da herança recebida de seu pai. Jesus deve ser compreendido no contexto cultural da época, portanto, em perfeita sintonia com a realidade familiar na qual vivia até mesmo no quesito “profissão”. O Papa Francisco, em sua Encíclica Coração de Pai – Patris Corde, escreveu:  São José era um carpinteiro que trabalhou honestamente para garantir o sustento da sua família. Com ele, Jesus aprendeu o valor, a dignidade e a alegria do que significa comer o pão fruto do próprio trabalho.

           Neste nosso tempo, em que o trabalho parece ter voltado a constituir uma urgente questão social e o desemprego atinge por vezes níveis impressionantes, é necessário tomar renovada consciência do significado do trabalho que dignifica.

          Uma família onde falte o trabalho está mais exposta a dificuldades, tensões, fraturas e até mesmo à desesperadora tentação da dissolução.

Neste primeiro de maio recorramos a São José Operário para que possamos nos comprometer para dizer: nenhum jovem, nenhuma pessoa e nenhuma família sem trabalho!

             O trabalho é uma chave determinante da questão social. Nesse sentido, a oração que Jesus ensinou recorda essa dimensão da vida humana ao suplicar: o pão nosso, garantido pelo trabalho cotidiano, nos daí hoje.

 

A VISITA AD LIMINA

(22/04/22)

        Nos primeiros dias de maio, os bispos do Rio Grande do Sul viajam a Roma para a Visita Ad limina Apostolorum.  Trata-se de um encontro que em condições normais deveria ocorrer a cada quinquênio, no qual cada bispo apresenta à Santa Sé e ao Papa o relatório sobre a situação pastoral de sua diocese.

          Essa visita se denomina Ad limina Apostolorum porque traduzida do latim significa: no limiar, na entrada, nos limites (das basílicas) dos túmulos apóstolos São Pedro e São Paulo.   Teologicamente, a visita manifesta a plena comunhão entre a Igreja no mundo, presidida pelo sucessor do Apóstolo Pedro, o Papa, e as Igrejas locais: as dioceses e arquidioceses, presididas pelos sucessores dos Apóstolos, os bispos e arcebispos. Esta visita está prevista no Código de Direito Canônico da Igreja Católica: “O Bispo diocesano, vá a Roma no ano em que está obrigado a apresentar o relatório ao Sumo Pontífice, se de outro modo não houver sido decidido pela Sé Apostólica, a fim de venerar os sepulcros dos Bem-aventurados Apóstolos Pedro e Paulo, e apresente-se ao Romano Pontífice” (Cânone. 400).

          Essa visita traduz bem o sentido da palavra católico, que significa universal, ou seja, é uma só fé vivida no mundo segundo a tradição bimilenar da Igreja. Ir a Roma é ter contato com o local onde a Igreja floresceu. 

Especialmente os bispos visitarão a Basílica Vaticana onde se encontra o túmulo do Príncipe dos Apóstolos: São Pedro e igualmente visitam a Basílica de São Paulo fora dos muros, onde está o túmulo do apóstolo Paulo. Além dessas veneráveis igrejas, também a Basílica de Santa Maria Maior e a de São João do Latrão serão visitadas pelos prelados gaúchos.  Nessas basílicas celebrarão a Eucaristia e reconhecerão a imensa herança recebida pela tradição apostólica e de certa forma simbolizada na edificação desses importantes templos católicos. 

          Além das celebrações, ocorrerão também reuniões de trabalho com diversos organismos, dicastérios e comissões pontifícias da Santa Sé que se responsabilizam pela formação do clero, pela doutrina da fé, pela educação católica, pelo desenvolvimento humano integral, pela vida consagrada, entre outras.  Um momento esperado de toda a visita é o encontro dos bispos com o Santo Padre o Papa Francisco. Ele receberá o grupo e dialogará com os bispos para perceber as alegrias e esperanças, os desafios e preocupações da Igreja no Rio Grande do Sul. Encontrar o Papa é sempre motivo de renovar o sentimento de afeto e obediência aos seus ensinamentos. Ele tem a missão de confirmar seus irmãos na fé. Com ele professamos ser a Igreja una, santa, católica e apostólica.

          Vale lembrar que os relatórios de cada diocese já foram enviados previamente, por isso tanto o Papa, como os cardeais das diversas congregações, terão alguma noção de como estamos vivendo a fé cristã no atual contexto. Espera-se, também, que a partilha de experiências e o alargamento da visão eclesial proporcionado pela visita à Cidade Eterna, inspire a pastoral e a organização da Igreja em nossas arquidioceses.

 

A PRESENÇA DO PAPA EM SANTA MARIA

(15/04/22)

         

        Santa Maria recebe em abril o representante do Papa no Brasil, o Núncio Apostólico Dom Giambattista Diquattro, que pela primeira vez visitará o Rio Grande do Sul. Ele virá para impor o pálio arquiepiscopal no novo Arcebispo. 

O pálio – derivado do latim pallium, significa manto de lã. Trata-se de uma insígnia litúrgica usada pelo Papa e pelos arcebispos. É uma espécie de colarinho de lã branca, com seis cruzes bordadas em lã preta que recordam as chagas de Cristo. Possui uma volta no centro e quando visto da parte dianteira ou traseira se assemelha à letra Y.

          É confeccionado com a lã de dois cordeiros, criados pelos monges trapistas da Abadia de Tre Fontane, em Roma. E, desde 1644, estes são abençoados pelo Abade na Basílica de Santa Inês Fora dos Muros, no dia 21 de janeiro, festa de Santa Inês. É tecido e costurado pelas irmãs de clausura do convento romano de Santa Cecília, e são guardados sobre as relíquias de São Pedro no Vaticano até o dia 29 de julho, solenidade de São Pedro e São Paulo, quando são entregues aos arcebispos nomeados desde a mesma data do ano anterior. Colocado sobre os ombros do arcebispo, o pálio representa a ovelha carregada pelo pastor, sinal da missão pastoral em comunhão com o Papa. Desde o século VI, o pálio foi considerado veste litúrgica, para ser usada somente na Igreja.

          Na festa de São Pedro de 2021 o Papa Francisco abençoou os pálios na Basílica de São Pedro em Roma, por causa da pandemia, os arcebispos brasileiros não puderam comparecer, dentre eles estava o atual arcebispo de Santa Maria. Os pálios abençoados foram enviados à Nunciatura Apostólica no Brasil para que o Núncio Apostólico imponha a insígnia aos arcebispos em suas sedes. É o que ocorrerá em 21 de abril próximo, às 10 horas na Basílica da Medianeira. Pela primeira vez na história, essa celebração ocorrerá em Santa Maria, pois Dom Hélio Adelar Rubert recebeu em 29 de junho de 2011 em Roma, pelas mãos do Papa Bento XVI. Desde 2015, o Papa apenas entrega o pálio aos arcebispos metropolitas no dia da Festa de São Pedro. A imposição é feita nas arquidioceses pelo Núncio Apostólico no país.

          O pálio entregue em Santa Maria nos aproxima ainda mais do Sucessor do Apóstolo Pedro, o Papa. Foi São Pedro que recebeu de Jesus o encargo de "apascentar as ovelhas". O pálio é sinal do encargo pastoral entregue aos arcebispos. Eles devem cuidar de todo rebanho do Senhor, especialmente das ovelhas tresmalhadas.  O pálio ainda é sinal distintivo da responsabilidade própria do arcebispo metropolita no âmbito de sua província eclesiástica.  A Província de Santa Maria reúne seis dioceses. Além da arquidiocese homônima, é composta pelas dioceses de Cruz Alta, Santa Cruz do Sul, Santo Ângelo, Uruguaiana e Cachoeira do Sul.  Ao Núncio Apostólico nos dirigimos dizendo: Bendito o que vem em nome do Senhor!

CRISTO, NOSSA PÁSCOA!

(08/04/22)

        A palavra Páscoa remonta ao ambiente semita, cujo significado é “passagem”. Povos antigos, de tradição agrícola, festejavam a passagem do inverno e a chegada da primavera. Na claridade da lua cheia os pastores imolavam os primeiros cordeiros, acreditando que este sacrifício asseguraria proteção contra as influências do mal. Comiam a carne numa refeição familiar que cultuava os laços de parentesco e da tribo.

          O povo judeu deu um novo sentido a essa passagem. Na entrada da primavera celebravam a Páscoa fazendo memória do anjo que passou pelas portas das casas dos hebreus, marcadas pelo sangue dos cordeiros e que poupou da morte os primogênitos deles, antes da travessia do Mar Vermelho, quando foram libertados da escravidão egípcia. Esta festa é celebrada ainda hoje entre as famílias israelitas. O simbolismo das antigas culturas pastoris e agrícolas adquiriu um novo significado: as ervas amargas, que outrora eram consumidas na refeição noturna dos pastores, entre os judeus significam a lembrança do tempo difícil da escravidão. Os pães sem fermento evocam a miséria no Egito e a pressa com que os israelitas partiram, sem ter tempo de levedar a massa. É celebrada na primavera pois, no começo desta estação, Israel saiu do Egito. É uma festa noturna, porque o Êxodo se realizou em noite iluminada pela lua cheia (Dt 16, 1).

          Nós, cristãos, assumimos esta festa como a passagem da paixão e morte de Jesus Cristo para a sua ressurreição e vitória eterna. Em Jesus Cristo se revela o mistério pascal da cruz e da ressurreição. A passagem que Jesus oferece à humanidade é do vazio e do absurdo para a plenitude do sentido. O mistério pascal celebra a vitória do impossível e a possibilidade do impensável. Em Jesus Cristo a humanidade recebe a salvação de Deus, o perdão dos pecados e a vida que não conhece mais o fim.

          Celebrar a Páscoa é considerar a unidade inseparável entre cruz e ressurreição. O crucificado da Sexta-Feira Santa é o vitorioso ressuscitado do sábado santo. Separar a cruz da ressurreição é esvaziar o sentido da Páscoa.  Se celebrássemos apenas a morte de Jesus de Nazaré, perderíamos a novidade surpreendente de Deus que é capaz de renovar todas as coisas e dar nova vida ao que já morreu. Se celebrássemos, no entanto, somente a ressurreição, esvaziaríamos o sentido das experiências de cada dia, marcadas por sombras e preocupações, angústias e tristezas, e até sonhos e desejos de um mundo melhor. A Páscoa cristã celebra a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo: rosto humano de Deus, rosto divino do ser humano.

          A Páscoa nos ensina que o povo de Deus não pode deixar de sonhar, de desejar e esperar. Contra todo desespero e ilusão, é necessário seguir criando e trabalhando por um mundo melhor. Apesar dos impérios da morte, da potência do vazio, do absurdo e das propostas que favorecem uma minoria mundial, o cristão não pode deixar de profetizar em favor da vida, da dignidade humana e da preservação do cosmos.

Pode parecer estranho, mas a única maneira dos cristãos mostrarem-se realistas é aspirar ao impossível. Caminha-se neste mundo rumo ao futuro de Deus, onde estarão unidos para sempre o céu e a terra. Tudo se dirige para a mesma meta: o Senhor que ressuscita e vem, o mundo que chegará à sua plena realização em Cristo.

 

O LEGADO CONTINUARÁ

(01/04/22)

          São Paulo VI, ao discursar na ONU em 1965, afirmou que a Igreja é especialista em humanidade. Onde ela está presente, sempre assume o compromisso de promover a dignidade humana, partindo de sua experiência de discipulado de Jesus Cristo. Nesse contexto, se encontra o valoroso desenvolvimento de todas as ações do Banco da Esperança, Projeto Esperança e Cooesperança. Dom Ivo Lorscheider, o gigante da esperança, é o patriarca de todo esse movimento e, a propósito, declarou: “Nós não queremos ver pessoas desanimadas, não queremos iludir ninguém, não queremos criar falsas expectativas, mas a esperança verdadeira”.

          No início de outubro de 2021, a Congregação das Filhas do Amor Divino, que há 35 anos atua nesse projeto, comunicou à Arquidiocese sobre a decisão de encerrar a comunidade Mãe da Esperança localizada no Banco da Esperança, onde residiam três consagradas, transferindo-as para outras missões.

          Essa nova situação exige, agora, maior empenho para manter viva a chama da solidariedade e da esperança em todas as iniciativas que Dom Ivo sonhou, concretizou e que foram continuadas por Dom Hélio Adelar Rupert. Igualmente, quero manifestar apoio para que nada do que já se conquistou se perca. Todos sabemos que, na história do Banco da Esperança, do Projeto Esperança e da Cooesperança, ocorreram diversas dificuldades e mudanças para manter vivo o ideal original, e não raras vezes foram necessárias adaptações.

          Neste momento novo, acolhemos e auspiciamos bom êxito para a nova coordenação escolhida pela Colegiada do Projeto Esperança/Cooesperança.  Quero agradecer, em nome da Arquidiocese, à Congregação das Filhas do Amor Divino, que continuará mantendo uma importante obra social no bairro Nova Santa Marta e a Ir. Lourdes Dill que atuou no Projeto Esperança/Cooesperança e no Banco da Esperança por 35 anos com a dedicação e articulação que alargou as fronteiras dos projetos para atingir os propósitos de uma economia solidária, o trabalho cooperativado, a agricultura ecológica, entre outras frentes. A itinerância é habitual na Igreja, e é fruto e obra do Espírito Santo, na linha do que escreveu São Paulo nas origens do Cristianismo: "Eu plantei, Apolo regou; mas Deus deu o crescimento” (1 Cor 3,6). Posso, portanto, afirmar que Dom Ivo plantou, a Ir. Lourdes regou e cultivou essa obra, e Deus, que nos quer todos  irmãos, continuará a dar o crescimento. Ela não se encerra! O momento novo nada rompe com o belo passado, mas avança, fortalecendo a prática da Doutrina Social da Igreja.

RÚSSIA E UCRÂNIA CONSAGRADAS AO CORAÇÃO DE MARIA

(25/03/22)

 

        A situação do conflito entre Rússia e Ucrânia ativou nossa percepção dos horrores da guerra. Os sofrimentos cada dia mais terríveis àquela população provada pela violência, preocupa também porque está ameaçando até mesmo a paz mundial.

          Os cristãos reconhecem seu Mestre e Senhor como o Príncipe da Paz, por isso rezam intensamente nesta hora pedindo socorro ao Cristo que veio para que todos tenham vida em abundância (Jo10,10). Também a oração pela paz constitui uma urgência. São João Paulo II afirmou que os cristãos devem estar no primeiro plano dos que oram todos os dias pela paz e devem ensinar também a orar pela paz. É a oração que leva a exorcizar as resistências, possibilita o discernimento e a paciência, estabelece a confiança e educa o olhar humano para enxergar o mundo e a vida na perspectiva de Deus.

          Nesse sentido, o Papa Francisco realizou no dia 25 de março, em Roma, um Ato Solene de Consagração da Humanidade, particularmente da Rússia e da Ucrânia, ao Imaculado Coração de Maria.  Na carta enviada aos bispos do mundo, o Papa escreveu que o gesto quer ser “um gesto da Igreja toda, que neste momento dramático leva a Deus, através da Mãe d’Ele e nossa, o grito de dor de quantos sofrem e imploram o fim da violência, e confia o futuro da humanidade à Rainha da Paz”.

          Na Bíblia, consagrar significa dedicar alguém ou alguma coisa, a Deus. Quando algo ou alguém é consagrado, fica dedicado para o louvor e para o trabalho em prol da glória de Deus. A Consagração do dia 25 de março invocou Nossa Senhora de Fátima que em sua aparição pediu tanto a conversão da humanidade para evitar violências cada vez mais absurdas. Na ocasião, os videntes afirmaram que a aparição pedia também que se rezasse pela conversão da Rússia. 

          Atualmente a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima do Santuário de Portugal está em Lviv, capital religiosa da Ucrânia, atendendo a um pedido do arcebispo metropolita greco-católico por causa da guerra no país.

Igualmente, o Papa Francisco convidou todos os bispos do mundo a unirem-se nesta intenção, convocando seus sacerdotes, religiosos e os fiéis para uma semelhante consagração em suas Igrejas locais, para que, “o santo Povo de Deus faça, de modo unânime e veemente, subir a súplica à sua Mãe”.

          Acolhendo essa solicitude paternal, realizamos no mesmo dia 25, às 18 horas, na Basílica da Medianeira de Todas as Graças, a consagração da humanidade e particularmente da Rússia e da Ucrânia ao Sagrado Coração de Maria.  Entre as suplicas à Virgem Maria naquele dia, rezamos com as palavras do Papa: “As vossas mãos maternas acariciem quantos sofrem e fogem sob o peso das bombas. O vosso abraço materno console quantos são obrigados a deixar as suas casas e o seu país. Que o vosso doloroso Coração nos mova à compaixão e estimule a abrir as portas e cuidar da humanidade ferida e descartada”.

REZAR, JEJUAR E AMAR

(07/03/22)

 

          A quaresma propõe alguns exercícios que evidenciam o caráter de conversão. Na Quarta-feira de cinzas escuta-se o Evangelho de Mateus (Mt 6,1-8.16-18) onde Jesus faz referência à esmola, à oração e ao jejum. São posturas que visam uma nova relação do ser humano consigo mesmo, com os outros, com as coisas criadas e com Deus.

          A oração, portanto, não é considerada como uma tentativa de pedir a Deus que cumpra a nossa vontade, mas é uma entrega total e generosa nas mãos do Pai. Intensificando a oração, o cristão tem maior abertura para Deus, não apenas para pedir ou agradecer, mas para escutá-Lo. Quem reza percebe que nenhuma tribulação ou euforia desse mundo duram para sempre. Em tempos de tanta agitação e ativismo, muitos esquecem de cultivar essa comunicação amorosa com a Trindade. Na oração quaresmal recordamos o Cristo que rezava no deserto, na montanha, no jardim. A oração é um diálogo com Deus. Falamos e escutamos.  Sem a oração não nos convertemos.

          A prática do jejum quaresmal, especialmente na quarta-feira de cinzas e na Sexta-feira Santa, bem como a abstinência de carne nas sextas-feiras, são gestos externos que devem revelar uma conversão interior. Não se trata de um formalismo, pois é inútil abster-se de alimentos sem mudar a mentalidade e rejeitar o que nos afasta de Deus. Aqui não há um desprezo do corpo, nem das realidades do mundo. O que é visível e material é necessário para o equilíbrio da vida. O princípio fundamental do jejum não é o sofrimento em si mesmo, mas a dor transformada em amor. É como o grão de trigo que morre para produzir muito fruto (Jo 12, 24). Esta prática permite unificar o nosso ser e a nossa relação com as coisas criadas. No comer e beber nos apropriamos das coisas. A comida e a bebida simbolizam tudo o que envolve o ser humano. Abster-se de um pouco delas revela que não nos deixamos escravizar pelas coisas deste mundo. Jejuar é controlar-se, é esvaziar-se de si para dar espaço para Deus e para os valores que estão além do mundo visível. Trata-se de buscar uma liberdade e um domínio sobre a natureza e o mal capazes de vencer as tentações.

          Enfim, não há conversão a Deus sem atenção ao amor fraterno.  A esmola, portanto, pode ser traduzida em gestos de caridade e transformação social. Ela visa melhorar o nosso relacionamento com o próximo. Dar esmola é dar de graça, sem pensar na recompensa. É uma atitude de compaixão. Através deste ato, rompem-se as barreiras do individualismo egoísta, do narcisismo e do fechamento. Celebra-se o compromisso comum de viver a partilha e a comunhão. Este amor gratuito não doa apenas coisas, mas também tempo, disponibilidade, serviço, talento e acolhida ao outro. A esmola pode não superar todos os problemas sociais, mas é um exercício contínuo de promoção humana. Nada mais estranho ao Evangelho do que o cinismo e apatia em relação ao outro. Graças a essa consciência caritativa, nossa Igreja se compromete com a economia solidária, o cooperativismo, o cuidado com a dependência química e com a todas as pessoas socialmente excluídas e moralmente perdidas.

ENSINA COM AMOR

(07/03/22)

 

        Na quaresma, a Igreja católica promove a Campanha da Fraternidade propondo a conversão pessoal e social de uma realidade marcada pelo pecado, nas suas expressões de injustiças, omissões e opressões, para uma sociedade fraterna. Em 2022 reflete-se sobre a educação, na certeza de que ela é indispensável para a construção de um mundo mais justo e fraterno. A realidade da educação no Brasil, especialmente marcada pelo flagelo da pandemia da COVID-19, exige uma mudança de mentalidade, reorientação da vida, revisão das atitudes e busca de um caminho que promova o desenvolvimento pessoal integral, a formação para a vida fraterna e para a cidadania.

          Esta é a terceira vez que a CNBB aborda essa temática na Campanha da Fraternidade, agora, incentivada pelo Pacto Educativo Global proposto pelo Papa Francisco. Este, visa uma educação humanizada que contribua na formação de pessoas abertas, integradas e interligadas, que sejam capazes de se preocupar, também, por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza. Urge reaprender a amar, a perdoar, a cuidar, a curar, a dialogar e a servir a todos.  Essa conversão para a fraternidade somente será possível à medida em que Cristo, que nos liberta do egoísmo, for tudo em todos (1Cor 15,22).

          O número 22 do texto-base da Campanha da Fraternidade expressa essa relação entre Cristo e a educação que se propõe neste momento de crise: “Educação não é condicionamento ou adestramento. É conduzir e acompanhar a pessoa para sair do não saber, rumo à consciência de si mesma e do mundo em que vive. É tornar a pessoa consciente, para que se torne sempre mais sujeito de seus sentimentos, pensamentos e ações. Isso vale tanto para crianças como para adultos, uma vez que a própria vida se encarrega de nos trazer oportunidades de aprendizagem em qualquer etapa. Uma pessoa se torna sujeito na medida em que pode dialogar com outras, percebendo que é levada a sério, que é escutada e amada”.

          Enfim, a Campanha da Fraternidade destaca dois aspectos fundamentais: o valor da pessoa como princípio da educação e o sentido do ato de correção, que é conduzir ao caminho reto. Não é repressão, mas é orientar a pessoa no caminho de uma vida transformada, verdadeiramente convertida à luz da verdade.   Essa consciência de que há uma emergência educativa em nosso mundo, e especialmente no Brasil, reflete bem o que escreveu o Papa Francisco na Laudato Sí, apelando para uma conversão de vida: “a educação será ineficaz e os seus esforços estéreis, se não se preocupar também por difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza» (n. 215).

          A Campanha da Fraternidade 2022 expressa o empenho por uma educação humanizadora capaz de ensinar com amor, como preconizou Hannah Arendt: “a educação é o momento que decide se nós amamos suficientemente o mundo para assumir a responsabilidade e assim salvá-lo da ruína, que é inevitável sem a renovação, sem a chegada de novos seres, de jovens”.

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE

(07/03/22)

        A partir de 1964, a Igreja no Brasil, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), promove a Campanha da Fraternidade como um dos modos de viver a espiritualidade quaresmal. Pretende-se contribuir para uma mudança de vida profunda que leva os cristãos, não somente a pedir a Deus perdão dos pecados, mas também a unir forças na construção de uma sociedade de acordo com a mensagem do Evangelho.

          Trata-se de concretizar os princípios da Doutrina Social da Igreja, patrimônio adquirido ao longo dos séculos e ancorado em experiências de santos e santas que tornaram a Igreja Católica a maior organização caritativa do planeta. Caritativa e não meramente filantrópica, pois os gestos de caridade estabelecem uma profunda relação de fraternidade entre quem ajuda e quem é ajudado, pois todos compreendem que temos um único Pai.

          A Igreja, no caminho de Jesus, observa as sociedades de diversas épocas, marcadas pela ferida do pecado, e percebe quanto se esquece dos doentes, escraviza-se populações, criam-se massas famintas, dizimam-se etnias em genocídios, promovem-se o terrorismo, matam o feto e a vida perde valor.  E explora-se a criação, nossa casa comum.

          Talvez hoje prefira-se outros termos para expressar essa situação de pecado que fere nossa relação com Deus e com as pessoas: crise ética ou crise de valores. Teologicamente trata-se de perceber como o ser humano pode ter um ego inflado e fechar-se em si mesmo, a tal ponto que a dor do outro não lhe cause mais estranheza. Alguns se fecham tanto que acabam negando a existência de Deus e o ensinamento de Jesus Cristo, pois sabem que não subsistiriam diante de suas palavras: tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, estava preso e me visitastes, estava doente e me socorrestes. Assim, não se faz caridade e nem se promove uma Campanha da Fraternidade sem um grande amor por Cristo. Não podemos separar culto e misericórdia, liturgia e ética, adoração ao único e verdadeiro Deus e compromisso com o irmão que padece.

          Embora a Campanha da Fraternidade seja especialmente realizada no tempo quaresmal, ela se estende ao longo de todo o ano com diversas iniciativas para rezar, refletir e propor caminhos para passar de um mundo não fraterno, marcado pelo pecado e injustiças, para uma sociedade de irmãos e irmãs.

          A cada ano é escolhido um tema, que reflete sobre a realidade a ser transformada, e um lema, que explicita em que direção se busca a transformação. Em 2022 o tema a ser rezado e refletido na Igreja é Fraternidade e Educação, e o lema é “Fala com sabedoria e ensina com amor”. Na introdução do Texto-base da Campanha da Fraternidade de 2022, afirma-se que “refletir e atuar a favor da educação é uma forma de viver a penitência quaresmal. É reconhecer que algo pode e deve mudar neste cenário e, principalmente, em nossas relações. Somos convidados a ver a realidade da educação em diversos âmbitos, iluminá-la com a Palavra de Deus, encontrando e redescobrindo meios eficazes que favoreçam processos mais adequados e criativos a fim de que ninguém seja excluído de um caminho educativo integral que humanize, promova a vida e estabeleça relações de proximidade, justiça e paz. A educação é um indispensável serviço à vida”.

O SENTIDO DA QUARESMA

(25/02/22)

        No próximo dia 02 de março celebraremos a quarta-feira de cinzas, que dará início na Quaresma de 2022. São 40 dias pelos quais os cristãos fazem sua preparação à Páscoa, principal festa do Cristianismo. ária e social. unitr para si, para os outros e para o mundo. Os primeiros registros de que os cristãos faziam uma preparação pré-pascal remonta ao início do século IV no Oriente e ao fim do mesmo século no Ocidente. No entanto, desde o século II os cristãos jejuavam para esperar a Páscoa.  A opção pelos 40 dias tem estreita ligação com o simbolismo bíblico.

          Biblicamente o número 40 refere-se ao tempo da espera, da preparação, da penitência, do jejum e até do castigo. Recorda-se os 40 dias que choveu durante o dilúvio (Gn 7,4). Moisés esperou 40 dias para receber as tábuas da Lei no Monte Sinai. Os israelitas peregrinaram quarenta anos no deserto em preparação à entrada na Terra Prometida (Ex 16,35). A cidade de Nínive fez penitência durante 40 dias para escapar do castigo divino. Elias viajou durante quarenta dias até chegar ao Monte Horeb onde Deus se manifestou na brisa (1 Rs 19,8). Jesus jejuou 40 dias no deserto preparando-se para sua vida pública (Mt 4,3; Mc 1,13; Lc 4,2). Após sua ressurreição, Ele apareceu durante 40 dias aos discípulos (At 1,3). Quarenta é, portanto, um número redondo e provisório que indica um tempo de preparação para algo que virá.

          A Quaresma não pode ser vivida como um tempo de sacrifícios e sofrimentos desconexos da vitória de Cristo na Páscoa. Na verdade, participamos dos sofrimentos de Cristo para participarmos também de sua glória.

Neste tempo a Igreja propõe exercícios que evidenciam o caráter da conversão, da mudança de vida. Na Quarta-feira de Cinzas escuta-se o Evangelho de Mateus (Mt 6,1-8.16-18) onde Jesus faz referência à esmola, à oração e ao jejum. São posturas que visam novas relações do ser humano consigo mesmo, com os outros, com a criação e com Deus.

          A Quaresma nos ensina o caminho da purificação e da iluminação. Nela acolhemos as palavras de Jesus: “convertei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1, 15). Não é uma simples mudança de vida, mas é a acolhida do amor de Deus, que reconcilia o mundo consigo. É tempo de reconhecer a infidelidade, a falta de conversão, arrependimento, de acolhida e do perdão que sai do coração do Pai. O período Quaresmal leva-nos a uma atitude de acolhida do amor misericordioso que vem de Deus e nos interpela para amar os irmãos e irmãs com solidariedade e compaixão. É tempo de viver a compaixão com Cristo e com os irmãos.

          Neste tempo de busca de sentido e carência de ética, a Quaresma faz um apelo a cada cristão para começar dentro de si as mudanças que deseja para ao seu redor. Toda conversão depende de uma postura de arrependimento e a decisão de uma nova posição em relação à vida.  Essa postura nova depende do quanto cada pessoa é capaz de confrontar seu estilo de vida com a proposta do Evangelho de Jesus.  Para iniciar a quaresma a Igreja coloca cinzas, sinal de penitência e arrependimento, proferindo a frase de Jesus: Convertei-vos e crede no Evangelho.  É tempo de renovar a fé, mudar de vida e encontrar a felicidade que somente o Deus Vivo pode oferecer.

UMA CASA PARA VIVER

(18/02/22)

        Um novo estilo de vida tem pautado o cotidiano de quem sofreu a ameaça da Covid-19 e foi obrigado a revisar seus comportamentos. O que essa nova situação não pôde extirpar, entretanto, é o desejo próprio do ser humano de ir ao encontro do outro, de conviver, de transcender. Há uma necessidade de amparo, de acolhida e aconchego que pode ser traduzida em busca de uma casa para habitar. Essa casa pode muito bem ser concebida como a comunidade de fé.

          As vivências comunitárias são determinantes para cada pessoa e são transmitidas de uma geração a outra.  Quando o grupo se torna muito individualista, a transmissão da tradição fica comprometida, não se entrega às futuras gerações o que das anteriores se recebeu. A crise da comunidade só é superável se o ser humano redescobrir o valor da pertença, da solidariedade e do vínculo afetivo.

          A busca de um lar de amparo e acolhida é fundamental para o ser humano não se sentir isolado e esquecido. A busca de terra, teto e trabalho, como bem indica o Papa Francisco, é uma busca de vida para a pessoa não sucumbir em sua existência. A casa, contudo, precisa se tornar lar, lugar para onde se volta após a fadiga do cotidiano e o enfrentamento dos revezes da vida. É determinante compreender uma casa não apenas como teto, mas como ambiência de vida.  Esse ideal de morar numa casa, contudo, abre a pessoa para se encontrar para além da família, encontrando na comunidade a completude dessa busca de sentido. Especialmente na religião, o encontro, a escuta e o diálogo permitem tornar a comunidade cristã um espaço privilegiado de crescimento integral a partir de uma espiritualidade.

          O redescobrimento da comunidade é da essência do ser cristão e do ser Igreja. O batizado nasce para Cristo e para a salvação na comunidade e a ela se agrega de modo ativo. Essa é a forma e a condição de possibilidade para o ser cristão. Sem comunidade não há Cristianismo autêntico. Não existe fé cristã individualista, nem por livre escolha, pois sempre há a mediação do outro, dos outros.

          Nas origens do Cristianismo, as comunidades cristãs fundaram-se na experiência das famílias e começaram nas casas dos cristãos. Famílias inteiras se convertiam e o espaço de suas residências servia para a celebração litúrgica (At 18,8). A família tinha um papel central na edificação da Igreja, com forte sentido de fraternidade e comunidade.

          A comunidade cristã não nasce de baixo, mas do alto; de Deus que suscita o desejo no coração humano e a necessidade das pessoas de um viver comum em Cristo. Por isso na comunidade cristã se manifesta o mistério da Igreja e ela é chamada constantemente a ser missionária da obra salvífica que Cristo realiza. A comunidade cristã é a experiência de Igreja que acontece ao redor da casa. É a Igreja que está onde as pessoas se encontram, independentemente dos vínculos de território, moradia ou pertença geográfica. É a casa-comunidade onde as pessoas se encontram.

          Na casa-comunidade há o chamado para todos formarem a grande família de Deus, daqueles que “ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). A comunidade se expressa na comunhão dos seus membros entre si, com as outras comunidades.

FRATELLI TUTTI

(11/02/22)

        O ideal de fraternidade é de suma importância para um mundo mais justo. Perceber o outro como irmão depende de uma capacidade de ver o outro como semelhante, seja ele como for. Essa percepção depende da capacidade de transcender, como lembra o Papa o Francisco: “Como crentes, pensamos que, sem uma abertura ao Pai de todos, não podem haver razões sólidas e estáveis para o apelo à fraternidade. (...) Só com esta consciência de filhos que não são órfãos, podemos viver em paz entre nós”. Com efeito, “a razão, por si só, é capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma convivência cívica entre eles, mas não consegue fundar a fraternidade”.

          Este pensamento de valorizar a amizade social e a fraternidade está bem desenvolvido na encíclica Fratelli Tutti, assinada pelo Papa Francisco em outubro de 2020. A encíclica propõe a superação da cultura do individualismo pela retomada da fraternidade.

          A expressão Fratelli Tutti é tirada da tradição franciscana. Ela era empregada por São Francisco de Assis como convite para se viver uma vida com o sabor do Evangelho. Isso implica superar três atitudes fundamentais:  a libertação do desejo de domínio sobre o outro; o propósito em tornar-se um dos “últimos”; e a busca por uma vida em harmonia com todos. Propõe-se um amor que leva a reconhecer no rosto do outro o rosto de um irmão, seja ele quem for, venha ele de onde vier.

          O advento da Covid-19 impactou a forma de compreender a realidade de viver o cotidiano com suas rotinas alteradas. A contaminação pandêmica ignora fronteiras, etnias, ideologias e tradições religiosas. Tudo está interligado, pois a fé cristã supõe uma integralidade até o fim da história.

          A encíclica lembra o quanto o advento da pandemia recuperou e valorizou a vida das pessoas que nos acompanham e daquelas que doam suas próprias vidas para que outros possam viver. Ao mesmo tempo, somos lembrados de que este é um momento de reconhecimento da fragilidade de nossas vidas, tecidas e sustentadas por pessoas comuns que, neste momento, estão escrevendo nossa história.

          Na encíclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco destaca o quanto somos analfabetos no acompanhar, cuidar e sustentar os mais frágeis e vulneráveis, enquanto partícipes de uma sociedade que tem o desenvolvimento como paradigma.  Nesse sentido, a encíclica tem um acento profético para nossos tempos.

          Merece destaque o que Papa Francisco fala sobre os ideais modernos de liberdade, igualdade e fraternidade. Ele alerta que muito se tem tratado acerca da liberdade dos direitos de igualdade. A encíclica alerta que a fraternidade não é resultado apenas de situações onde se respeitam as liberdades individuais, nem mesmo da prática duma certa equidade. E afirma que não se alcança a igualdade definindo, abstratamente, que «todos os seres humanos são iguais», mas resulta do cultivo consciente e pedagógico da fraternidade. Aqueles que são capazes apenas de ser sócios, criam mundos fechados. E denuncia:  a mera soma dos interesses individuais não é capaz de gerar um mundo melhor para toda a humanidade. Nossa meta comum é tomar consciência de que realmente somos todos irmãos, afinal não somos órfãos, temos um Pai.

NÃO TENHAM MEDO!

(05/02/22)

 

          Muitas vezes as pessoas se perturbam diante das dificuldades do cotidiano, especialmente diante de situações inesperadas. Uma das reações mais habituais diante do desconhecido é o medo. Medo da novidade, do desafio, do problema e até do futuro. Em algumas vezes o medo paralisa a pessoa e causa profunda dor. Não temer é uma das expressões mais recorrentes na Bíblia. Aprender a lidar com a vida entre luzes e sombras do cotidiano é uma sabedoria que desafia a todos nós.  Podemos ter medo até de nos colocarmos diante de Deus.

          O cristianismo tem suas raízes no Deus que se fez carne e habitou entre nós, por isso, a história humana tem um valor indispensável.  Justamente por ser histórica a espiritualidade cristã também sofre a tentação do medo.

Em última análise, o medo é sintoma de nosso medo de Deus, de suas exigências, de suas solicitações. É o que os medievais denominavam acídia, ou preguiça espiritual.  Por outro lado, realmente, as exigências de Deus são mortais, quem o encontra deve morrer para sua própria história de pecado e desvios. Ele convida o velho ser humano a morrer, para que possa o novo ser humano caminhar por caminhos novos, até então desconhecidos.

          Quem realmente tem uma intensa vida de oração sabe que não há como gerir a própria vida sem remetê-la nas mãos de Deus que realmente a conduz. Uma antiga etimologia medieval entendia o verbo crer, como cor-dare (credere), isto é, é dar o coração.  Trata-se de entregar a si mesmo Deus, é deixar-se guiar por Ele, mesmo que seja no caminho da noite escura. Isso é exigente, porque a nossa tentação é de nos defendermos diante do futuro que só a Deus pertence, queremos as garantias e a segurança daquilo que já possuímos e nos fechamos às surpresas de Deus.

          Uma imagem bíblica que pode ajudar nessa reflexão é a do jovem rico que experimenta uma profunda angústia quando Jesus lhe abre um futuro diferente daquilo que os bens lhe garantem. (Mc 10,17 ss). Recordemos que Jesus olhou para ele com amor, mas o jovem não aceitou ficar a sós diante de Deus, não conseguiu renunciar a seus álibis e defesas.

          Às vezes, nossas orações e nossa espiritualidade são repletas de leituras, livros e palavras, mas acabam nos impedindo de escutar, silenciar e dar espaço que permita ao Deus Vivo vir e tomar silenciosamente em suas mãos toda a nossa vida para transfigurá-la.

          Quando ousamos ficar diante de Deus, fazemos a tremenda e fascinante experiência de sair do vazio e da miséria na qual nos encontramos. Sua presença faz com que nos abramos à novidade divina, a oração nos faz antecipar o futuro prometido no presente.  Por isso, é importante ser capaz de rezar nos momentos de crise, desafios, problemas, doenças e contradições nas quais nos encontramos.  Somente com muita coragem, vencemos o medo para nos tornar realmente livres no amor. Longe de ser uma fuga, a oração, assim experimentada, é novidade e experiência de acolhida ao Deus que vem ao nosso encontro.

          Aprendamos com Santa Teresa de Jesus a dizer para si mesmo: Nada te perturbe, nada te amedronte, tudo passa. Quem a Deus tem, nada lhe falta. Só Deus basta!

CONSTRUIR A ESPERANÇA

(28/01/22)

         O ser humano é verdadeiramente um mistério para si mesmo.  Apesar de ser uma das criaturas mais adaptáveis que existem no Planeta, é também a criatura mais inconformada, pois somente se houver esperança, ele poderá viver na alegria.  Somente o ser humano, dentre todas as criaturas, experimenta o tédio, pois tem sede de plenitude e sabe que não encontrará paz nem mesmo se conquistar o mundo inteiro.

          Isso ocorre porque o ser humano foi feito para transcender a si mesmo.  Ele não deseja apenas viver eternamente, vencendo a morte, mas busca uma plenitude de vida, que tenha sentido e beleza. Daí nasce a esperança de uma plenitude que deve chegar.

          A esperança cristã é simbolizada pela âncora. Na Carta aos Hebreus, se lê sobre a esperança: Nela temos como que uma âncora da nossa vida segura e firme. (Hb 6,19). Ela é segura e firme porque é atirada não ao mar, mas ao céu, não no tempo, mas na eternidade. Para os cristãos, a âncora representa estabilidade e segurança. Marinheiros e navegantes sempre lembravam uns aos outros antes de se lançarem ao mar: "Não saia do porto sem levar uma âncora."

          A esperança, diz o pensador francês Péguy, é quem tudo arrasta consigo, porque a fé só vê o que existe, ao passo que a esperança vê o que existirá. O amor só ama o que existe, mas a esperança ama o que existirá no tempo e por toda a eternidade.

          Na contradição entre o hoje e o amanhã, entre a experiência e a espera, nos defrontamos com as várias possibilidades do futuro: desespero, presunção ou esperança.

          Desespero é a atitude daqueles que negam o futuro porque o identificam com o mal presente. Entende-se que o mundo é um caos e está no fim. Tudo está errado e não há mais saída. Pensa-se o presente como tédio.

          Presunção é a recusa do presente, atitude daqueles que avaliam falsamente a si mesmos e as capacidades do mundo, dos que identificam o presente com o bem que deve vir. Esquecem-se da lei do sofrimento e da finitude do ser. “Estas duas coisas matam a alma: o desespero e a falsa esperança” escreveu Santo Agostinho.

          A esperança, afinal, é a tendência para um bem futuro e realizável. É uma energia interna, que cresce na pessoa e a torna capaz de derrubar muros e obstáculos considerados intransponíveis. É um sentimento que leva a olhar para o futuro, tido como portador de condições melhores do que as do presente. Assim, até mesmo os sofrimentos são enfrentados como situações efêmeras, diante de um fim mais alto e de maior valor.

CULTIVAR A ESPIRITUALIDADE

 (21/01/22)

        Hoje se fala muito sobre a importância de cultivar a espiritualidade; contudo, é necessário compreender o que realmente significa isso.  É importante considerar como crescem as pesquisas que demonstram a importância da religião e da espiritualidade para qualificar a saúde física, mental e social das pessoas. Em vista disso, a Organização Mundial da Saúde (OMS) incluiu o aspecto espiritual no conceito multidimensional de saúde. Igualmente, alguns estudos de Psicologia revelam que é mais fácil sair de uma crise quando a pessoa alimenta uma espiritualidade e/ou pratica uma religião. Recorde-se que a maioria dos tratamentos para dependentes químicos, especialmente reunidos em clínicas ou fazendas de recuperação, integra a fé como um elemento importante para reabilitar o sentido da vida. 

          Os sábios das diferentes tradições religiosas reconhecem que nunca há uma autêntica espiritualidade se o ser humano buscar apenas satisfazer seus desejos e suas necessidades. Quando o eu está no centro, não sobra espaço para Deus. Sem Deus, o ser humano sustenta apenas os dias de felicidade, mas quando aparece a inevitável provação da dor e da perda, faltam elementos que o sustentem. Pensar no todo, implica em rezar a realidade vivida.  Necessitamos superar uma visão de espiritualidade que delimita a vida religiosa da pessoa, isolando-a da realidade. Precisamos de uma experiência de encontro, integrada ao cotidiano da pessoa.

          A espiritualidade está ligada a espírito, mas é preciso buscar o sentido original do termo, pois hoje se utiliza esse vocábulo de forma muito ampla. A palavra espírito, em português, deriva de duas expressões bíblicas: uma grega e outra hebraica. No Antigo Testamento, encontramos o termo hebraico ruah que designa vento, sopro de Deus.  Já no Novo Testamento, seu equivalente grego é pneuma, indicando também ar e sopro divino. Os dois conceitos podem ser traduzidos como sopro de Deus. Ele é o autor desse sopro, desse hálito vital. Algumas vezes, espírito foi entendido como alma e nem sempre sua distinção é fácil. Alma, no latim é anima. Somos pessoas animadas.

           Quando falamos que alguém é animado, dizemos que está motivado. Ora, a nossa vida é iniciativa de Deus. Todo nosso ser vem de Deus.  Dele vivemos, nele existimos e nos movemos. Para ele voltaremos um dia. Ter uma espiritualidade é viver animado. É perceber que tudo é dom. Viver é o grande presente do Criador.  Espiritualidade sempre indica dinâmica, vitalidade, animação, movimento.

          Aqui se trata de recuperar a percepção do homem bíblico a fé passa a ser o motor que impulsiona a ação humana, que conta com a ação do Espírito Santo, que liberta das falsas visões da realidade.

Externamente, a espiritualidade revela as relações que a pessoa estabelece com os outros, com a sociedade e o mundo.           Desse modo, cresce a solidariedade, o respeito, a tolerância e a reverência pela pessoa, pela cultura e pelo ambiente. Há uma compreensão da pertença de tudo em todos, apesar das diferenças. Há uma fraternidade universal que nasce da experiência da paternidade do único Deus.

PACTO EDUCATIVO GLOBAL

(14/01/22)

 

        No dia 15 de outubro de 2020, o Papa Francisco reforçou o seu empenho com um Pacto Educativo Global. O Papa destacou que a pandemia do Covid 19 manifestou a crise sobre nossa forma de compreender a realidade e de nos relacionarmos entre nós e afetou diretamente o mundo da educação.

          Desde o início da pandemia, aliás, tem se observado o quanto o mundo da educação apresenta tanto estruturas frágeis, quanto abnegação dos educadores. Estes, de forma geral, nunca deixaram de buscar novas formas de contato com seus estudantes para garantir a continuidade do processo educativo. O mundo da educação vem sendo, há tempos, um campo de oportunismos e descasos, com propostas simplistas para problemas complexos.

          Para o Papa Francisco, a educação é um dos caminhos mais eficazes para humanizar o mundo e a história. Ela apresenta-se como o antídoto natural à cultura individualista, que às vezes degenera num verdadeiro culto do “ego” e no primado da indiferença.  O Papa destaca as preocupações com as questões de pobreza, as crises existenciais e a questão da sustentabilidade da vida no planeta como razões para propor uma nova educação.

          Ao trabalhar nessa perspectiva, o Papa amplia enormemente a compreensão comumente guardada a respeito da educação. Muito mais do que uma sistemática de ensino e aprendizagem a respeito de algum assunto, a educação é o processo através do qual a humanidade emergiu na Terra.  É através dela que cada ser humano se apropria da cultura, da memória e, portanto, da própria identidade. A educação ultrapassa e transcende escolas, universidades e quaisquer sistemas de ensino ou avaliação, ainda que se concretize principalmente nesses lugares e processos.

          É preciso superar propostas educativas focadas na utilidade, no resultado, na funcionalidade e na burocracia, que confundem educação com instrução e acabam por fragmentar as culturas. É urgente trabalhar por uma cultura integral, participativa e poliédrica. Também é necessário problematizar algumas visões a respeito de educação cultivadas em nosso meio. A imagem romantizada e idealizada dos educadores, em vários discursos, raramente leva em conta toda a formação necessária para se exercer a profissão. Junto a isso ainda persiste a ideia de que educação é algo que se realiza com simples “transmissão” de conhecimentos, quando se sabe que aprendizagem é algo que se dá na experiência concreta, devidamente mediada por quem tem formação para tanto.

          O Papa também diz que não devemos esperar tudo daqueles que governam, pois há espaços de corresponsabilidade capazes de iniciar e gerar novos processos e transformações. Isso depende de cada pessoa e das comunidades locais. Urge que toda sociedade seja pedagógica em suas relações e educadora em suas finalidades.

EDUCAÇÃO COMEÇA EM CASA

(10/01/22)

        Hoje, num mundo em rápidas mudanças é urgente um novo paradigma educacional. Em primeiro lugar, a educação começa em casa, com a família. Não é possível delegar para a escola a responsabilidade de formar cidadãos éticos e íntegros se em casa a criança e o jovem recebem, diariamente, lições contrárias. O respeito, a dignidade e o cuidado são valores ensinados em família. Se ela não cumprir seu papel dificilmente a escola conseguirá suprir essa lacuna. Poderá ajudar a rever algumas posturas, mas de forma insuficiente.

          Tanto na escola quanto na família emergem desafios que as crianças e os jovens estão pedindo atenção. É preciso maior proximidade, caso contrário, eles se isolarão nas “ilhas paradisíacas” das redes sociais. Pedem para ser mais escutados em suas necessidades, seus medos e seus sonhos, caso contrário, pais e professores lhes serão estranhos e até adversários. Quando eles não percebem uma relação de confiança, tendem a se fechar e a procurar outros referenciais. É urgente entender que apesar da importância do trabalho e da remuneração, não há dinheiro que pague o tempo gasto por um pai e uma mãe que se dedicam aos seus filhos. Há um clamor de todos os lados, como sempre nos recorda o Papa Francisco: maior proximidade, mais escuta e mais encontro.

       A educação precisa formar homens e mulheres capazes de pensamento crítico, dotados de elevado profissionalismo, mas sem perder o senso de humanidade e orientada em colocar a própria competência ao serviço do bem comum. Humanizar as relações é o maior desafio da família e da escola atual.

          Muitas propostas educativas atuais sublinham a razão instrumental e a competitividade, essas são portadoras de um conceito puramente funcional da educação, como se ela só tivesse legitimidade ao serviço do mercado e do trabalho. E infelizmente muitas famílias têm essa visão estreita da realidade.  Isso abala a visão integral de educação, não educa, apenas informa e não forma.

          O individualismo contemporâneo tem produzido pessoas capazes de oferecer mais afeto a um pet do que aos idosos. É preciso valorizar os animais e essa convivência deveria fazer perceber que se a vida irracional sabe se relacionar e se importar, muito mais os seres dotados de inteligência e vontade podem cuidar e amar uns aos outros. Isso é ser humano.

          Na proposta de uma educação integral cabe ao professor e aos familiares, apesar das dificuldades e resistências, não perder o sonho de uma humanidade nova, pois ao assumir a missão de educar, o ser humano enleva sua capacidade de pensar e construir um mundo melhor. Alguém poderia achar isso utópico e irrealizável, contudo, quem conhece a força da educação sabe o quanto ela é capaz de construir o imprevisível no serviço do bem comum. 

A justiça e a kiss

 

        Estamos acompanhando o julgamento dos envolvidos no ocorrido na KISS em 27 de janeiro de 2013, quando 242 jovens perderam a vida numa madrugada que não será jamais esquecida e que marcou indelevelmente a cidade de Santa Maria.  Nesse contexto, quero repetir o que afirmou a nota ecumênica emitida no dia 25 de novembro passado, pela Igreja Católica Romana, Igreja Episcopal Anglicana, Igrejas de Confissão Luterana no Brasil e a Igreja Evangélica Luterana no Brasil em Santa Maria: É preciso confiar na instituição judicial à qual caberá estabelecer o veredicto, encerrando uma angústia que já se estende por muito tempo. Nos colocamos em oração por todos, especialmente pelos familiares das vítimas, que vivem há anos a experiência do luto e da saudade.

          Jesus proclamou: Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça (Mt 5,6). Sabemos, contudo, que neste mundo vivemos um tempo provisório no qual não é possível realizar a plena justiça. Quando ocorre um julgamento, sempre haverá um lado que reclamará um veredicto diferente.  A justiça é, em certo modo, maior que as dimensões da vida terrena, que as possibilidades de estabelecer nesta vida relações plenamente justas.

          Cristo deixou-nos o mandamento do amor ao próximo, e nele inclui-se também tudo o que se relaciona à justiça. Não pode haver amor sem justiça. A paz é fruto da justiça. Quando se enfraquece a justiça, o amor corre perigo.

          A referida nota ecumênica também asseverou que a verdadeira preocupação é que se procure a justiça também numa perspectiva restaurativa, sem nenhum senso de vingança. Essa sentença permite alargar a compreensão de justiça, pois ela tanto é um conceito legal, quanto uma virtude moral.  Muitas vezes conhecemos a justiça representada com a imagem de olhos vendados, entretanto, sabemos que a verdadeira justiça exige muita atenção e vigilância para que se garanta o equilíbrio entre os direitos e os deveres dos cidadãos.  Essa perspectiva propõe uma justiça que restaura e não destrói; reconcilia, ainda que puna para reparar os danos, mas não se alimenta de vingança. No julgamento, confiamos e esperamos na capacidade humana de escutar, discernir e propor vias capazes de satisfazer o senso de justiça.

          É oportuno, também, recordar o que aconselhou o Papa Francisco, dirigindo-se aos juízes: as pessoas encarregadas de administrar a justiça têm grande responsabilidade. Seu trabalho não é fácil, e tem consequências que afetam diretamente a vida das pessoas. Por isso, devem manter sua independência e imparcialidade para assegurar que a justiça tenha sempre a última palavra.

          E ainda alertou: Os juízes devem seguir o exemplo de Jesus, que nunca negocia a verdade. Rezemos para que todos aqueles que administram a justiça operem com integridade e para que a injustiça que atravessa o mundo não tenha a última palavra. 

          Almejamos, ecumenicamente, que fatos dessa natureza nunca mais se repitam, nem aqui em nossa querida cidade e em nenhum outro lugar. Que o Senhor da Vida acompanhe todas as pessoas que estarão envolvidas nos eventos dos próximos dias. E que a justiça de Deus prevaleça e seja impressa em nossos corações imperfeitos!

FÉ CRISTÃ E COMPROMISSO SOCIAL
(26/11/21)

 

        A experiência cristã não se faz ao lado ou acima da história. Os dramas humanos, as angústias e os desafios da humanidade provocam a fé cristã para não fugir do mundo.  A lógica da encarnação de Deus no mundo, em Jesus Cristo, ordena à Igreja uma presença expressiva na sociedade, e não somente para suscitar utopias ou alimentar a transcendência. O Deus que assume a carne humana para a salvação de todos, atinge toda a realidade humana em sua multiforme existência. Assim, o Cristianismo preocupa-se tanto com as pessoas individualmente, dando-lhes sentido para a existência, quanto com as comunidades e sociedades, com as relações que determinam e legitimam a vida do indivíduo como ser criado para a comunhão e não para a solidão.

          No confronto entre a mensagem evangélica e as vicissitudes históricas não pode haver neutralidade ou indiferença. Todas as formas de exclusão, injustiça, violência e mentira afetam profundamente o ser cristão e por isso geram posições e atitudes que desmascaram as forças que desumanizam.

          Não é possível conceber, então, a fé cristã sem o serviço na construção de um mundo justo e fraterno. Esperar o Reino em plenitude, separando fé e justiça, Evangelho e vida, espiritualidade e compromisso social, seria uma redução perigosa ao próprio conteúdo da fé que não separa o amor a Deus do amor ao próximo.  A comunhão com Deus, portanto, exige uma reorientação total da presença do ser humano na sociedade e de sua ação sobre o mundo. Isso implica em valorizar a vida desde a fecundação até o seu fim natural, com olhar bem atento às necessidades dos pobres e sofredores. Tais posicionamentos não impedem que os cristãos sejam mal interpretados e até perseguidos.

          Um conhecido texto da Antiguidade, a Carta a Diogneto, sintetiza essa condição do cristão no mundo: “Os cristãos, de fato, não se distinguem dos outros homens, nem por sua terra, nem por língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, nem falam língua estranha, nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles, graças ao talento e especulação de homens curiosos, nem professam, como outros, algum ensinamento humano. Pelo contrário, vivendo em cidades gregas e bárbaras, conforme a sorte de cada um, e adaptando-se aos costumes do lugar quanto à roupa, ao alimento e ao resto, testemunham um modo de vida social admirável e, sem dúvida, paradoxal. Vivem na sua pátria, mas como forasteiros; participam de tudo como cristãos e suportam tudo como estrangeiros. Toda pátria estrangeira é pátria deles, e cada pátria é estrangeira.”

          Os cristãos vivem no mundo, mas sabem que sua pátria é o Reino de Deus, contudo, têm consciência de que devem testemunhar o Eterno em meio às realidades terrestres, por isso se comprometem na busca de um mundo mais justo e fraterno, e trabalham por um humanismo integral e solidário.

POR QUE SOFREMOS?

19/11/21

        A experiência da vida humana é uma alternância de alegrias e sofrimentos. Tristeza e dor nem sempre dependem da vontade humana. Pode-se até pensar no mal como uma anomalia da criação ou um escândalo que remete a tantas interrogações: por que sofrer? O mistério do mal sempre afetou o ser humano ao longo da História. A dor aparece como a privação do bem ou uma ruptura, ou mesmo uma desordem.

          O sofrimento existe, seja porque nosso organismo nem sempre funciona como deveria, seja porque no mundo ocorrem as mais diversas desordens que afetam nossa existência: desde acidentes e terremotos, até uma separação, uma doença ou uma morte. O que constatamos é a divisão de nosso ser que pretende a felicidade, mas frequentemente não consegue atingi-la.

          Quando contemplamos uma criatura humana que nasce com sérias limitações e anomalias, nos questionamos sobre o sofrimento inocente. Certamente, não podemos dizer que tal dor tenha sua origem em Deus por razões superiores e por nós desconhecidas. A expressão “Deus quis assim”, muito comum nestes casos, remete a uma interpretação dos fatos de quem concebe Deus em termos antropomórficos, segundo a nossa consciência e nosso agir.  Atribuir a Deus, que é o Sumo Bem, a origem dos males, é irracional. Assim se conceberia um Deus estranho as suas criaturas, um calculista indiferente ao sofrimento e aos erros que perturbam a ordem de amor que Ele mesmo estabelecera.

          A fé não suprime a dor, mas a despoja do seu estilo punitivo. Suportar a dor não significa deixar-se derrotar pelo sofrimento, mas pelo contrário, encontrar uma esperança que estava escondida.

Para quem crê, o sofrer estabelece uma intimidade com Cristo. A partir da experiência de Jesus na carne, o Filho de Deus viveu o sofrimento. Com ele, o sofrer implica tentação e convite. Tentação porque a dor, seja de qual tipo for, ameaça todas as seguranças e certezas da pessoa. Ela é uma ruptura que pode fragmentar toda pessoa. Quando a dor provoca revolta, essa é a reação de alguém impotente que não consegue avaliar os limites da natureza e termina imputando a Deus a impotência humana. Convite, porque ao absurdo da dor se contrapõe a solidariedade de Cristo que modifica o sentido do sofrimento. Neste sentido, quem sofre pode crescer moral e espiritualmente com essa experiência.

          É claro que poucos são os que conseguem viver tudo isso numa enfermidade. Isso depende de fé. Só o crente pode abrir caminhos de libertação da escravidão imposta pelo mal. Nesse sentido, não interessa quanto se sofre, mas como se sofre.  Ninguém nasceu para sofrer, mas a dor pode ajudar a crescer.

A ROMARIA DE 2022

(11/11/21)

 

        A pandemia alterou nossas rotinas e foi preciso enfrentarmos situações inéditas. A situação nos ensinou a priorizar o essencial. As duas últimas Romarias Estaduais de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graças também passaram por alterações para que a comemoração fosse possível.

          Já começamos a planejar a Romaria de 2022, na esperança de uma presencialidade maior. Tudo será novamente pensado e executado para reverenciar a memória histórica de um evento que tem suas raízes num passado significativo e se projeta para um futuro promissor, pois a fé sempre suscita a esperança.

          A Romaria da Medianeira se realiza anualmente no segundo domingo do mês de novembro, sendo a celebração que reúne o maior número de participantes num evento religioso no Rio Grande do Sul.  No próximo ano, contudo, será preciso fazer uma alteração na data. Ocorre que para o segundo domingo de novembro de 2022 está programado o Congresso Eucarístico Nacional a ser celebrado em Recife, Pernambuco. Momento singular no qual toda a Igreja do Brasil estará voltada para rezar e refletir sobre a Eucaristia, presença real de Cristo, Filho de Deus e de Maria, em nossos altares. Para o Congresso se dirigirão muitos bispos, presbíteros, consagrados e leigos de todo o Brasil.

          Todos sabem que a verdadeira devoção mariana nada antepõe a Cristo. A Eucaristia nos faz comungar o Cristo que a Virgem carregou nos seu ventre por nove meses. Ela foi como que um sacrário humano, vivo, no qual Deus se fez carne e veio habitar entre nós. Na fidelidade a esse princípio, a Arquidiocese de Santa Maria celebrará, de forma excepcional, a festa de Nossa Senhora Medianeira de todas as Graças no primeiro domingo de novembro de 2022, dia 06. A data, por providência divina, será o Domingo de Todos os Santos, dos quais Maria é a Mãe e Rainha.

          Alguém poderá estranhar a mudança de data. É bom recordar, entretanto, que o dia litúrgico oficial da Igreja para celebrar a Medianeira é 31 de maio. Mesmo assim, nunca foi um problema realizar essa festa no segundo domingo de novembro, no Rio Grande do Sul. Razões muito especiais ajudaram nessa decisão. Se em 2022 alteramos de forma excepcional a comemoração, será também por um motivo singular.  O importante é marcarmos uma data para nos renuirmos e nos apresentarmos diante de Maria como filhos devotos.

          Se no Dia de Todos os Santos celebrarmos a Virgem e reservarmos o dia 13 de novembro para honrarmos o sacratíssimo Corpo e Sangue de Jesus, estaremos em sintonia com a vontade de Maria Santíssima: primeiro Jesus! Não é a data que conta, mas a ocasião de celebrar.

É TEMPO DE ROMARIA

(4/11/21)

 

        Quando chega o mês de novembro, a Igreja de Deus que está em Santa Maria se reveste de fé e júbilo para celebrar a Medianeira de Todas as Graças. O santuário-basílica torna-se meta de muitos devotos e romeiros que buscam paz e força. É tempo de Romaria. O peregrino sabe que a caminhada é, antes de tudo, uma realidade interior que tende ao encontro com Deus.  Quem caminha rumo ao santuário, na verdade está à procura da sua realidade mais íntima e mais profunda. Aquele que crê vive como um andarilho, não quer instalar-se no provisório. Experimenta a vida como uma contínua peregrinação, uma procura da fonte existencial que sacia sua sede.  Quem vai à Medianeira espera e confia em Deus, que enviou seu Filho ao mundo para salvar a humanidade. Salvar do pecado e da morte, salvar e curar, libertar e oferecer novas oportunidades.

          Aos pés da Medianeira depositam-se sonhos e pedidos, angústias e esperanças. No coração da Mãe de Jesus tudo é acolhido. Nem todos os pedidos são atendidos como se pretende, mas ninguém sai de mãos vazias. A consoladora dos aflitos, saúde dos enfermos e refúgios dos pecadores volta seu olhar de mãe sobre cada filho e filha que a ela recorre em prece. A Medianeira não é mera lembrança da mãe de Jesus, na verdade ela é presença na vida de cada cristão. Ela leva a Jesus nossa prece, Ele que dela nasceu. Assim, ela mostra que é nossa mãe, que Ele mesmo nos deu como grande testamento do seu amor por nós. No alto da cruz, antes de morrer, ele olhou para o discípulo João e disse: “Eis tua mãe!” Naquele momento histórico, a maternidade de Maria alargou-se de tal modo que todo o que crê em Jesus ganha uma singular e especial mãe: Maria.

          Ela acolhe seus filhos, escuta seus lamentos e preces e manifesta sinais de sua ternura, atenção e intercessão. As curas corporais acontecem, mas são excepcionais e raras. O que mais se percebe são as curas do coração, oferecidas a todos; cada um as recebe conforme sua necessidade. A vida cristã é feita de sucessivas conversões. Se por um lado é possível constatar e se admirar pelos milagres de curas físicas, dificilmente se contabilizará as curas interiores, que são numerosas.

          A Romaria da Medianeira altera a rotina de Santa Maria e testemunha que o ser humano não foi feito para viver e morrer, mas para viver e vencer a morte na páscoa de Cristo. Saboreando nele o amor de Deus, os crentes reconhecem que ainda estão a caminho. É como se a Basílica visível remetesse à edificação invisível, maior e mais plena: a Jerusalém celeste, o Reino da Trindade. O santuário faz o cristão desejar o céu.

          Espero que ao presidir a Romaria da Medianeira, pela primeira vez na condição de Arcebispo de Santa Maria, possa suplicar à Nossa Senhora dias de paz e saúde para todos os devotos e romeiros, mas sobretudo, quero pedir à Virgem Mãe que renove toda nossa Igreja no Evangelho e nos torne instrumentos da caridade de Cristo para o mundo. Que ela continue sendo nosso íris em meio à procela!!!

NÃO MORRO, ENTRO NA VIDA!

28/10/21)

        Diante da morte, o enigma da condição humana questiona toda existência.  Em nossa cultura, não fomos educados para adoecer, perder e morrer. Pensamos que a vida sempre será jovem, bela e forte.  Causa tristeza saber que há finitude e vulnerabilidade. Mais, atormenta-nos o temor de que tudo acabe para sempre.  Entretanto, a intuição do próprio coração humano acerta, quando o leva a aborrecer e a recusar a ruína total e o desaparecimento definitivo da pessoa. O germe de eternidade que existe em cada pessoa, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. (Gaudium et Spes, n. 18).

          Ensina o cristianismo que, em Jesus Cristo, apesar de vivermos na contingência do tempo, já somos eternos, porque somos filhos de Deus. É por isso que os cristãos já sabem ser ressuscitados e a morte não pode lhes separar de Cristo, como proclama São Paulo Apóstolo.  Aqui está uma verdade a se redescobrir na experiência cristã: a ressurreição é esperança tão certa que se torna uma experiência que transforma a vida. Por isso, na celebração da missa dos finados rezamos que a vida não é tirada, mas transformada e, desfeito nosso corpo na terra, nos é dado nos céus um corpo imperecível. E mais, se a certeza da morte entristece, a promessa da ressurreição consola.

          A ressurreição é uma vida eterna e nova,que nada a ela se compara. Não se trata de esperar reviver para novamente perder a vida. Tampouco pode ser algo que se repete no tempo e no espaço. Trata-se de uma vida eterna, tão bela e inefável como é a vida humana ao nascer. Na verdade, pela morte, nascemos para verdadeira vida em Deus. Nele, não há solidão, nele toda lágrima é enxugada e todo cansaço encontra remanso.

          Trata-se de plenificar e consumar o que agora temos apenas como imagem. Vivemos na fé e na esperança, aquilo que um dia veremos plenamente. Neste sentido, o morrer é um adormecer para este mundo limitado pelo tempo e pelo espaço e acordar nas potências infinitas do Criador. Trata-se do encontro que dá significado a toda experiência humana. Por isso, o corpo humano não pode ser desprezado nem reduzido o seu valor. Ele deve ser cuidado como lugar das experiências de vida e ressurreição, que foram registradas em nossa carne durante o nosso tempo na terra.

          O Dia de Finados é uma oportunidade especial para refletir sobre a nossa capacidade de recuperar a memória daqueles que fizeram parte de nossa história. Assim, é possível compreender que não somos seres isolados, pois fomos cuidados, acompanhados e amados por pessoas, e algumas delas já partiram. A morte leva para a eternidade algo de nós. Também somos convidados a perceber que nossa vida também passará. Como o dia termina com o belo pôr do sol, como um livro tem o epílogo, nossa vida tende a um final que não significa o fim da existência. Afinal, morremos sempre. Morre o idoso, farto de dias, e morre também o jovem, sedento de vida.  Cabe a cada um dar uma resposta a esta experiência, mesmo que sobre ela não pensemos.  É importante recordar a experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus, monja carmelita francesa, que após uma intensa enfermidade, viu se aproximar a morte aos 24 anos de idade e escreveu: “não morro, entro na vida”!

Escutar para Crer

 

        Para os católicos, no Brasil, setembro é o mês da Bíblia. A escolha se deve porque no dia 30 de setembro celebra-se a festa de São Jerônimo, o primeiro tradutor dos textos originais da Sagrada Escritura, do hebraico e do grego, para o latim.  Todo tempo é oportunidade para ler, meditar e rezar a Palavra de Deus. Entretanto, é preciso alertar os cristãos para a necessidade de escutar mais a voz de que se manifesta de forma privilegiada na Bíblia. Isso ocorre porque somente pela escuta atenta aos apelos de Deus é que a humanidade poderá encontrar o sentido da vida e da ética cristã.

          Não existe outro modo de conhecer a Deus que não seja pela escuta.  Não podemos procurar Deus, indagar a respeito Dele, a não ser que Ele mesmo erga o véu que o encobre e se revele e nos fale. A escuta é a primeira operação para entrar em comunhão com Deus. Ele fala e o ser humano escuta, e, se o obedece (ob-audire) escuta e pratica, então, se torna crente. Sabemos que para Deus, no princípio estava a Palavra. (Jo 1,1). Para o ser humano, entretanto, no princípio está a escuta!

          Em Israel, o mandamento por excelência é “Shemá Israel” (Dt 6,4), Escuta Israel!”O profeta Jeremias testemunha sobre a ação de Deus: “Em verdade, eu não falei nem dei ordens aos vossos pais sobre a oferta e sobre o sacrifício, quando os fiz sair do país do Egito. Mas foi isto que lhes ordenei: “Escutai a minha voz”! (Jr 7,22-23). “Escutar é melhor que os sacrifícios” (1 Sm 15,22). E na Transfiguração, a voz do Pai sobre Jesus diz: Escutai-o! (Mc 9,7). Pela escuta assídua o ser humano entende que a fé nasce da escuta (Rm 10, 17). Há quem se torna fraco na fé, porque escuta muitas vozes, mas ensurdece-se para ver o que o Criador o quer falar.

          Somente pela escuta dialoga-se com Deus e com as pessoas. A escuta primeireia o diálogo. Primeirear significa adiantar, tomar a iniciativa. Somente pela escuta se vencem as distâncias e se cria a empatia. Pela escuta supera-se uma prática religiosa que não esteja atenta à realidade da vida e das pessoas.

          Escutar é mais que ouvir. Ouvir está na linha da informação. Escutar está na linha da comunicação, na capacidade do coração que possibilita a proximidade, sem a qual não é possível um verdadeiro encontro. A escuta nos ajuda a encontrar o gesto e a palavra oportuna que nos desinstala da sempre mais tranquila condição de espectador.

          Escutar a Palavra é a condição para poder crer em Deus. Quem não escuta pode produzir uma religiosidade muita intensa, mas totalmente vazia da verdade, da bondade e da beleza de Deus que se revela em sua Palavra. Justamente por isso é que só pode ocorrer mudança de vida quando se escuta o que Deus nos pede. Como entender que é preciso perdoar quem nos ofendeu, rezar pelos nossos inimigos, partilhar os bens com os necessitados e dizer às pessoas para criarem ânimo, sem escutar a voz Daquele que realiza o impossível?  Em suas orações, você mais escuta ou fala? Não basta a ler a Bíblia, é preciso escutar essa Palavra, só se escuta bem apurando o ouvindo e aquecendo o coração.

A MISSÃO NA ERA DIGITAL

(22/10/21)

 

        Outubro é o mês para rezar e refletir sobre a missão dos cristãos no mundo. Durante séculos a preocupação da Igreja tem sido levar o anúncio da salvação em Cristo a todos os povos da Terra. A denominada missão ad extra sugere ultrapassar os limites geográficos e culturais para que o mandato missionário de Jesus Cristo se realize: Fazei todos os povos discípulos meus (cf. Mt 28,19). Hoje, entretanto, as fronteiras se dissolveram e encontram-se novos desafios para o anúncio da fé. Muito diferente dos desafios da geografia e da cultura, se impõe a questão das novas tecnologias da informação e seu impacto sobre a vida das pessoas.

          A fé passou a ser transmitida e experimentada através de plataformas multimídia. Se conectarmos a internet, nos depararemos com um oceano de possibilidades para acessar experiências com o sagrado. Não dá para subestimar e nem supervalorizar tais experiências. O certo é que estamos diante de uma nova forma de vivência religiosa.

          O desafio consiste em investigar a relação do sagrado experimentado, tradicionalmente, no espaço presencial com o sagrado reconstruído pela mídia moderna. Diante das novas possibilidades de comunicação e dos novos tipos de relacionamentos que a mídia possibilita, a religião também interage de forma diferenciada com seus fiéis. Há muitas perspectivas e preocupações. O ser humano atual é informado e conectado, acessa dados e vive na ambiência digital. É muito difícil anunciar algo absoluto numa cultura formada por verdades subjetivas. No pluralismo não se aceita mais uma só verdade. As pessoas preferem fazer muitas escolhas, ter muitas possibilidades, e não ter a existência marcada por uma só direção. A maioria das pessoas declara-se crente, mas, também é tentada a seguir os apelos de quem privatiza a religião no reduto do provisório e do ocasional.

          Hoje o desafio da missão é narrar Deus numa sociedade marcada pela era digital, plural e altamente informada. A grande questão que se impõe hoje para a missão não é como dizer as coisas, mas o que dizer! Para o apóstolo São Paulo a dificuldade era como chegar às pessoas e aos povos, porque ele sabia o que dizer. Atualmente, o problema não é mais como chegar às pessoas, mas o que dizer para elas, porque se multiplicam os canais de comunicação e fragmentam-se os conteúdos. Apesar de tudo, compreende-se que o impulso de comunicar é o fundamento para a missão, como bem afirmou São Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: Em cada nova etapa da história, a Igreja, impulsionada pelo desejo de evangelizar, não tem senão uma preocupação: quem enviar para anunciar o mistério de Jesus? Em que linguagem anunciar esse mistério? Como conseguir que ressoe e chegue a todos os que devem escutar?

          O tempo fascinante no qual a missão cristã atual se depara é mais positivo do que negativo. As chances de anunciar o Evangelho se multiplicaram, pois o acesso está mais fácil, os conteúdos podem ser mais bem disponibilizados e a humanidade continua procurando um sentido.

PAIXÃO DE ENSINAR

(15/10/21)

        No dia 15 de outubro comemora-se, no Brasil, o Dia do Professor. Desde 2020, sabemos o quanto esses valorosos profissionais precisam vencer o cansaço e o peso do cotidiano, para encontrar alternativas de educar em tempos de pandemia. Quanta dedicação e espírito colaborativo para cumprir essa nobre missão!

          Quero dedicar-me, nesta breve reflexão, a reconhecer o valor e o sentido da educação em um tempo complexo como o nosso. A educação emerge diante do reconhecimento do ser humano que não sabe tudo, não vive tudo, não experimenta tudo. O ser humano precisa escutar, sentir, partilhar, conviver e aprender. Só assim, seu ser se abre, cresce e se sustenta. A incompletude faz do ser humano alguém sociável e educável.

          Assim, é urgente oferecer aos educandos um percurso de formação que não se limite uma oportunidade individualista e instrumental de um serviço apenas em vista de um título a ser obtido. Além da aprendizagem dos conhecimentos  é necessário que os estudantes façam uma experiência de partilha e sabedoria com os educadores.

          Precisamos formar sujeitos capazes de respeitar a identidade, a cultura, a história, a religião e, sobretudo, os sofrimentos e as necessidades dos outros, na consciência de que todos somos verdadeiramente responsáveis por todos, inclusive pela criação, nossa Casa Comum. Isso implica educar para valores e não apenas para saberes.

          Na educação integral os valores não são somente afirmados, mas também vividos, pela qualidade dos relacionamentos interpessoais, que ligam professores e educandos e estudantes entre eles. Pelo cuidado, também, que os professores têm diante das necessidades dos educandos e das exigências da comunidade local, pelo claro testemunho de vida oferecido pelos gestores, professores e por todos os funcionários das instituições educativas.

          Mas a educação não pode se restringir ao ambiente escolar e formal. Como sustenta um provérbio africano: "para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira." Por isso, há um lugar indispensável da família, no processo educativo de alguém. Essa missão não pode ser delegada apenas à escola e ao professor. Também a comunidade e a sociedade precisam se envolver no processo de promover uma formação integral, humanista e solidária. Sem essa interatividade e participação, o educando dificilmente desenvolverá todas as suas potencialidades. Professores sabem o quanto as famílias precisam assumir, cada vez mais e melhor, essa missão de educar.

          Enfim, com muita gratidão à toda comunidade educativa, quero recordar, especialmente aos professores, em forma de homenagem, o que disse o Papa Francisco dirigindo-se a educadores: "Encorajo-vos a renovar vossa paixão pelo ser humano, não se pode ensinar sem paixão! - no seu processo de formação, e a ser testemunhas de vida e de esperança. Nunca, nunca fecheis as portas; ao contrário, escancarai-as todas,a fim de que os estudantes tenham esperança!".

PAZ NOS DESAVENTOS, Senhora Aparecida!

(8/10/21)

 

        O compositor Renato Teixeira é o autor de Romaria, famosa canção que em seus versos suplica à Nossa Senhora Aparecida proteção e o seu refrão é bem conhecido:  Sou caipira, Pirapora nossa, Senhora de Aparecida. Ilumina a mina escura e funda o trem da minha vida.  Entretanto, uma das estrofes merece uma reflexão às vésperas de celebrarmos Nossa Senhora Aparecida, padroeira principal do povo brasileiro e razão do feriado nacional: Me disseram, porém, que eu viesse aqui, pra pedir de romaria e prece, paz nos desaventos. Como eu não sei rezar, só queria mostrar, meu olhar, meu olhar, meu olhar.

          Realmente muitos brasileiros seguem a vida em romaria e prece, para suportar os desaventos do cotidiano, que não são poucos e nem fáceis. Na correria dos dias, entre a agitação e o malabarismo para superar os problemas de saúde, educação, desemprego, e vida digna para a família, alguns até desaprenderam de rezar.  É por isso que recorrem àquela pequena imagem de terracota, enegrecida pelas águas do Rio Paraíba. Lá onde os caminhos de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro se cruzam e se abrem para todo país chegar ao maior santuário mariano do mundo.

          O evento remonta à segunda quinzena de outubro de 1717, quando três pescadores, após uma pesca falida, encontraram uma imagem fragmentada de Nossa Senhora da Conceição. Seus desaventos mudam com a pequena imagem, pois conseguem muitos peixes para um famoso banquete que deveria ser servido ao conde de Assumar e governante da capitania de São Paulo e Minas de Ouro, que estava de passagem pela cidade de Guaratinguetá.

          Desde aquela data, cresceu a veneração à Nossa Senhora Aparecida, que recebeu muitas homenagens, desde a princesa Isabel, filha de Dom Pedro II que ornou a imagem com uma coroa preciosa, até cada romeiro e devoto que lá coloca uma flor ou acende uma vela como expressão de seu amor e sua fé.

          Muitos passam por aquele lugar santo e se colocam diante do altar de Aparecida, contemplam a Virgem Santa e lá se apresentam como filhos diante da mãe. Mostram suas vidas cansadas e clamam por dias melhores.  Levam sonhos e esperanças, preocupações e desalentos.  

          Nem todos podem estar naquele magnífico templo edificado para saudar a Mãe e Rainha do Povo Brasileiro, mas em todos os lugares, todos os filhos podem deixar-se ver por ela, apresentando-lhe, nesta troca de olhares, uma prece antiga que é retomada pelo Papa Francisco que assim reza: Olhar-Te simplesmente – Mãe –, deixando aberto só o olhar; Olhar-Te de cima a baixo, sem Te dizer nada, e dizer-Te tudo, mudo e reverente. Não turbar o vento da tua fronte; só abrigar a minha solidão violada nos teus olhos de Mãe enamorada e no teu ninho de terra transparente. [...] Olhar-Te, Mãe; contemplar-Te apenas, o coração silencioso na tua ternura, no teu casto silêncio de açucenas.

SÃO FRANCISCO – O IRMÃO UNIVERSAL

(1º/11/21)

 

        No início do mês de outubro, mais precisamente no dia quatro, recorda-se São Francisco de Assis, um homem que viveu na Idade Média e tem uma mensagem sempre atual. Pode-se dizer que o “poverello” – o pobrezinho de Assis é um homem universal, capaz de inspirar homens e mulheres de todos os tempos e de todas as regiões do planeta na busca de uma vida integrada.

          A tradição popular coloca São Francisco como o padroeiro dos animais. De fato, ele amou muito a natureza, a ponto de exclamar: irmão sol, irmã luz, irmão lobo e irmã água! Sua consciência de pertença ao cosmos criado por Deus Pai, fê-lo compreender que somos todos irmãos, por isso ele é chamado de irmão universal. Engana-se, contudo, quem pensa que a primeira consciência que o Santo teve foi a da sua fraternidade com animais, plantas e estrelas. Partindo de um encontro íntimo com Jesus, na igrejinha de São Damião em Assis, no ano de 1206, é que Francisco entendeu que sua vida faustosa e vazia exigia maior profundidade. Sua primeira mudança ocorreu em relação aos leprosos, por quem nutria grande repulsa. Superando todas as suas resistências, certa feita, ao encontrar um leproso nas ruas de Assis, revestiu-se de coragem e abraçou e beijou aquele homem com doença contagiosa, pustulento e mal cheiroso.

          Aquele gesto para com o leproso libertou Francisco. Aos poucos cresceu nele o desejo ver essa irmandade de toda criação. Ele mesmo chega a escrever em seu testamento: “aquilo que me parecia amargo converteu-se para mim em doçura da alma e do corpo; e depois parei um pouco e saí do século.” A expressão sair do século indica sua ruptura com um mundo marcado por vaidades, materialismo e poderes que separavam e dividiam as pessoas, esquecendo especialmente dos doentes e pobres.  Somente quando foi capaz de rever sua relação com as pessoas é que alguém pode realmente compreender sua relação com a natureza.  Saber equilibrar a vida com seus muitos encontros e desencontros é um desafio. A fraternidade universal que Francisco ensina supõe amar cada pessoa de forma única e igualmente sentir-se parte de um todo maior, no qual as plantas, os animais e até os minerais, bem como os astros, são considerados irmãos. Essa consciência depende de um adequado sentimento de paternidade, que encontra em Deus sua origem e meta. Há muitas pessoas que se sentem órfãs dessa paternidade divina, pois não se deixam amar pelo Amor. Por isso Francisco repetia muitas vezes, o Amor não é amado!

          Deixar-se amar por Deus e saber amar as pessoas e toda a criação é a causa e a consequência da fraternidade universal. Cuidar mais de animais do que de doentes, idosos e pobres, é perder a chance maravilhosa de encontrarmos o equilíbrio que tanto buscamos e nem sempre encontramos. Não se trata de escolher pessoas ou animais, mas é evidente que toda pessoa é imagem e semelhança de Deus. É claro que as relações nem sempre são fáceis entre semelhantes, mas sem eles, nos desumanizamos.

          Quanto mais nos desafiamos em encontrar as pessoas, mais somos capazes de nos encontrarmos em nossa existência. São Francisco foi tão eloquente no seu estilo de vida, que em poucos anos reuniu milhares de homens e mulheres dispostos a seguir o mesmo caminho. A força desse senso de pertencimento e de fraternidade, atrai, equilibra e orienta a vida.

          Nos últimos séculos, muito se tem clamado por liberdade e igualdade, urge, entretanto, reforçar o clamor por fraternidade, cuja raiz se encontra num único Pai de todos, que a todos convoca a uma nova relação com Ele, com as pessoas, com a natureza e conosco mesmos. São Francisco, rogai por nós!

Aprender a envelhecer

 (9/21)

 

        O Dia Nacional do Idoso é comemorado em 27 de setembro e propõe refletir sobre a situação do idoso no Brasil. Antes de tudo, é preciso considerar que envelhecer é uma lei da natureza. Isso implica estar sensível ao entardecer da existência.  É uma etapa na qual é preciso superar a contraposição entre a idade da força, dos jovens, e a idade da fragilidade, dos velhos.  É necessário vencer a crise de sentir-se sempre doente, em busca de uma juventude perdida ou de um rejuvenescimento a qualquer custo.

          Em muitas culturas, os velhos são testemunhas eloquentes da história e da tradição, herdeiros privilegiados do tesouro cultural da comunidade. São considerados sábios conselheiros que experimentaram as lutas e dificuldades do tempo, mas acalmaram suas vidas pelo tempo que passou. É verdade que a pessoa não pode ocultar sua velhice, mas nos idosos permanece a inteligência, a capacidade de meditar, a possibilidade de amar e de partilhar pensamentos, ideias e sentimentos. Tudo isso supõe que as pessoas se preparem para envelhecer.

          Pesquisadores que conciliam geriatria e espiritualidade constatam como a busca de um sentido para a vida, a prática do bem e a fé em Deus, com o avançar da idade, amenizam o impacto dos sofrimentos e dos revezes da vida, e mais, melhoram as condições da saúde física e da mental.

          A Bíblia bem recorda que o idoso não se torna mestre da vida automaticamente. Não é só porque tem muita experiência que se tornará alguém que acumulou sabedoria. Tudo depende da forma como ele se relacionou com essas experiências, o que aprendeu e como lidou com as dificuldades, como serenou o coração e a mente nas crises, como soube ser humilde no sucesso e paciente na provação.

          Nesse sentido, o idoso tem valor não somente porque tem muitos anos de vida, mas porque aprendeu, com o tempo, a lapidar sua personalidade e torná-la menos complicada e mais sábia. E, como afirma o Salmo 92, “Dão fruto mesmo na velhice, são cheios de seiva e verdejantes, para anunciar que o Senhor é reto” (Sl 92, 15 s). A velhice, na Bíblia, é apresentada como um tempo propício para bem concluir a aventura humana. É o tempo que tudo favorece para que o ser humano possa compreender melhor o sentido da vida e alcançar a “sabedoria do coração”.

          Deve-se entender que a velhice é um período muito especial da vida humana, pleno de sentido e com sua beleza própria. Descomplique a vida. Entenda mais os netos. Aprenda com as crianças. Admire as buscas dos jovens.  Aceite que as pessoas têm seus projetos, e que nem sempre você está neles. Ame-os mesmo assim. Não é ser velho que machuca, mas ser inerte e superficial, confundir serenidade com inatividade, abandono espiritual com indiferença à vida.

Deus e a pandemia

(9/21)

        Com a pandemia da Covid-19 novos ritmos e estilos de interagir com a nova realidade foram se impondo em nossas rotinas. A falsa segurança e o delírio de onipotência ruíram. Diante do flagelo, entretanto, alguém poderá se questionar: “Onde está Deus?” Igualmente, os teólogos após a Segunda Guerra Mundial se perguntavam: “Como falar de Deus para os olhos que viram Hiroshima, Nagasaki e Auschwitz?”

          Como naquele tempo, a complexa situação que a humanidade está vivendo hoje implica na revisão das nossas relações econômicas, políticas e culturais. Também o âmbito religioso precisa fazer uma leitura sobre a crise. O que       Deus está nos dizendo?

          Para a tradição judaico-cristã, trata-se de redescobrir o sentido do silêncio do Eterno diante do sofrimento, superando discursos que interpretam a pandemia como castigo. Um Deus violento só pode ser pensado por quem não conhece o amor e a misericórdia. A interpretação de que Deus seria o autor dessa realidade é resultado de projeções do desejo humano diante dos contextos inusitados que a humanidade vive.

          Deus criou este mundo e lhe concedeu total autonomia. A presença do mal no mundo e nas decisões humanas é um mistério para todos. O silêncio de Deus, porém, não é apatia, pois quem crê sente o amor real de Cristo, que não o livra da cruz. A fé cristã faz perceber que a última palavra da história não será a doença e a morte.

          Diante da profissão de fé, é preciso crer e esperar em Deus, na certeza de que toda essa realidade que estamos vivendo passará, mas nos leva a rever nossa capacidade de entender a vida. Urge uma hermenêutica acessível e consciente, que auxilie na leitura dos fatos.  É preciso evitar discursos religiosos fatalistas ou proselitistas. A pandemia não está ocorrendo por causa de nossos pecados ou como uma espécie de provação, na qual Deus estaria testando nossa fidelidade.  Ela ocorre como uma realidade imprevisível que revela nossa fragilidade.  Ao invés de ser assumida como provação ou castigo, a pandemia pode ser encarada como um tempo profético e escatológico, no qual muitas verdades, até então escondidas, são reveladas. Cabe a cada cristão acolher o tempo presente vivendo entre as coisas que passam e “abraçando” aquelas que não passam.  A empatia, a solidariedade e a defesa da vida são testemunhos de uma caridade que jamais se perderá. A renovação da fé e a proximidade de Deus em nosso cotidiano é um imperativo para quem quer bom senso e paz.